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IN MEMORIAM DA LAVA JATO - 26.08.26


Por Percival Puggina

 
         “Todo poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Lord Acton

 
        
Quando o Ocidente, por bons ou maus modos, pôs fim ao absolutismo monárquico, destacaram-se dois modelos de limitação do poder político: o britânico, construído a partir da Revolução Gloriosa de 1688, e o estadunidense, instituído com a independência de 1776. Os artífices desta última conheciam bem o modelo institucional vigente na Inglaterra. Com bom proveito, haviam estudado O Espírito das Leis, que Montesquieu publicara poucos anos antes. Tempos brutos na América, mas quem sabia ler, lia.
 
Ali estava, também, a tripartição do poder, pondo a funcionar o sistema de freios e contrapesos, para evitar que qualquer deles saísse de controle. Seria a esse modelo que o Brasil aderiria nas suas constituições democráticas, adotando, com igual intuito (o de fracionar o poder político), o federalismo vigente nos Estados Unidos. Só que não. Em momento algum foram providas, no Brasil, as precondições necessárias para a efetiva autonomia dos entes federados. A experiência republicana associou a palavra “federal” à ideia de governo central, do qual dependem, em proporções variáveis, estados e municípios. No encadeamento dessa tradição, foram ganhando força crescente as expressões “federal”, “nacional”, “central”, “geral”, “único”, entre outras. Tal fenômeno reflete a permanência de práticas que concentram o poder político na capital da República – um hábito intoxicante.
 
Na correspondência que trocou em 1887 com o bispo anglicano Mandell Creighton sobre a responsabilidade moral de líderes históricos, Lord Acton nos proporcionou a famosa afirmação transcrita como introdução a este artigo. Ele não aceitava que a importância de um cargo – de qualquer cargo – sublimasse a condição humana de seu ocupante e alertava contra a tolerância ante os abusos de poder. De suas páginas, parece gritar ao Brasil de hoje: “Parem de abraçar a servidão! Não normalizem aberrações institucionais!”
 
A literatura de ficção científica produziu obras interessantes sobre revolta das máquinas. Autores providos de gênio criativo conceberam a possibilidade de as máquinas ganharem autonomia e construírem razões autônomas ou aspirarem e lutarem por domínio (como acaba de acontecer de modo autônomo com duas IAs). Ora, se nem o poder das máquinas escapa à sentença de Lord Acton, como poderia fazê-lo o imenso aparelho do poder político brasileiro?
 
A nação, vertente de onde emana o poder, quis a Lava Jato, amou a Lava Jato, aplaudiu-a com empolgação, e a viu ser objeto de uma campanha de descrédito. Assistiu-a ser destroçada pela máquina do poder. Ainda assim, pesquisa de Genial/Quaest de março de 2024 mostrou que apenas 28% dos entrevistados consideravam que ela “fez mais mal do que bem”...
 
A corrupção colossal que estamos vendo em Brasília é expressão política e apocalíptica de uma brutal concentração de poder. É sintoma visível da servidão a que fica relegada a nação quando artifícios são montados para perenizar autoridades, posições e acesso a meios abundantes, agindo de modo autônomo e... fora de controle. Só que isso não é ficção científica (nem política), é dura realidade sobre a qual não adianta falar. Tudo foi consumido, consumado e a continuidade da Lava Jato teria evitado.
 
Brasília, nosso mostruário de excessos, é referência sensível da concentração de autoridades gerando autoritarismo, de poder gerando abuso e de arrogância gerando narcisismo.


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O SOCIALISMO NÃO FRACASSOU - 24.08.26


Por Roberto Rachewsky

 

Existe uma frase repetida há décadas: “O socialismo fracassou. ”Eu discordo. Dizer que comunismo e fascismo são ideologias erradas ainda lhes concede uma inocência que não merecem. Elas não são simplesmente erradas. São desumanas, malévolas e irracionais.

 

Comunismo e fascismo são COLETIVISTAS e, nesse sentido fundamental, são MODELOS DE SOCIALISMO. Mudam os símbolos, os inimigos escolhidos e a abstração em nome da qual o indivíduo deve ser sacrificado. No comunismo, a classe. No fascismo, a nação e o Estado.

 

Karl Marx forneceu ao comunismo a racionalização intelectual da luta de classes. Giovanni Gentile, principal filósofo do fascismo italiano, forneceu ao fascismo a racionalização filosófica da absorção do indivíduo pelo Estado. Mas há um equívoco ainda mais profundo quando se diz que essas ideologias estão simplesmente “erradas”. Erradas em relação a quê? Se o critério for a liberdade individual, são monstruosas.Se o critério for a prosperidade de indivíduos livres, são destrutivas.

Se o critério for o respeito à propriedade, são incompatíveis com ele. Mas estamos partindo da premissa de que liberdade, prosperidade, propriedade e autonomia individual eram os objetivos desses sistemas. E é justamente essa premissa que precisa ser questionada. Porque aquilo que normalmente é apresentado como o fracasso dessas ideologias pode ser precisamente aquilo que permite que elas funcionem.

 

COMUNISMO E FASCISMO encontram combustível em algumas das manifestações mais destrutivas da psicologia humana: a inveja, o ressentimento e a impotência cognitiva. A inveja não deseja simplesmente possuir aquilo que o outro possui. Em sua forma mais destrutiva, deseja que o outro deixe de possuir. O ressentimento transforma a realização alheia em acusação. O sucesso do outro deixa de ser inspiração e passa a ser afronta. E a impotência cognitiva leva aquele que não consegue ou não quer compreender as causas da produção, da riqueza e do sucesso a substituí-las por uma explicação emocionalmente conveniente: se alguém possui mais, deve ter tirado de alguém. É nesse terreno que o coletivismo prospera. O produtor deixa de ser aquele que criou alguma coisa e passa a ser apresentado como alguém que deve explicações. O sucesso torna-se suspeito. A riqueza torna-se evidência de culpa. A desigualdade de resultados transforma-se em injustiça. A propriedade passa a ser tratada como concessão social. E aquele que nada criou recebe uma reivindicação moral sobre aquilo que foi criado pelos outros. A partir daí surge a figura indispensável a qualquer sistema parasitário: o intermediário político. Alguém precisa decidir quem tem demais. Alguém precisa decidir quem tem de menos. Alguém precisa determinar quanto será retirado de um e entregue a outro. Alguém precisa administrar a distribuição. Alguém precisa estabelecer prioridades. Alguém precisa decidir quem merece.

E, sobretudo, alguém precisa controlar tudo isso.

 

É nesse momento que a inveja e o ressentimento deixam de ser apenas sentimentos privados e se transformam em instrumentos políticos. O ressentido oferece legitimidade. O governante oferece coerção. Um fornece a justificativa moral. O outro fornece a força. E ambos precisam do produtor para financiar essa relação. Por isso é enganoso dizer que o socialismo fracassa quando destrói riqueza. A destruição da riqueza independente reduz a independência do indivíduo. É enganoso dizer que fracassa quando destrói a propriedade. Sem propriedade, o indivíduo se torna mais dependente daqueles que controlam os recursos. É enganoso dizer que fracassa quando destrói a autonomia. Sem autonomia, aumenta o poder de quem governa. É enganoso dizer que fracassa quando empobrece a sociedade. Uma população dependente é politicamente muito mais fácil de controlar do que uma população economicamente independente.

 

Portanto, aquilo que costuma ser apresentado como consequência indesejada pode funcionar como instrumento de preservação do próprio sistema. O objetivo não precisa aparecer escrito num manifesto. Nenhum parasita precisa declarar que pretende enfraquecer o hospedeiro. Basta observar a lógica da relação. Quanto menos o indivíduo consegue viver sem o Estado, maior é o poder daqueles que controlam o Estado. Quanto menos propriedade possui, mais precisa pedir. Quanto menos pode produzir livremente, mais precisa de autorização. Quanto menos pode escolher, mais precisa obedecer.

 

 Quanto mais depende de benefícios, subsídios, licenças, reservas de mercado, privilégios, empregos públicos ou favores políticos, maior é o preço de desafiar aqueles que controlam sua sobrevivência. A dependência deixa então de ser uma deficiência do sistema. Ela é o sistema. E existe uma razão ainda mais profunda para isso. O indivíduo independente representa uma ameaça permanente a qualquer estrutura parasitária.

O indivíduo independente não precisa do planejador. O indivíduo proprietário não precisa do distribuidor. O indivíduo produtivo não precisa daquele que promete distribuir a produção alheia. O indivíduo que pensa por conta própria não precisa do ideólogo. O indivíduo que produz e troca voluntariamente não precisa de um burocrata decidindo com quem pode negociar, quanto pode cobrar, quanto pode ganhar ou quanto deve entregar. E o indivíduo que não precisa deles é precisamente aquilo que uma estrutura parasitária de poder não tem interesse em multiplicar.

 

Por isso, quando essas ideologias confiscam propriedade, sufocam a iniciativa privada, destroem poupança, controlam preços, criam dependências, censuram dissidentes e concentram poder, não estamos necessariamente diante de acidentes inexplicáveis ocorridos durante uma tentativa frustrada de construir uma sociedade livre e próspera. Uma sociedade de indivíduos livres e independentes seria a negação do próprio sistema. Seria seu verdadeiro fracasso.

 

 

Imagine um regime coletivista que produzisse indivíduos cada vez mais ricos, independentes, proprietários, autônomos e capazes de viver sem pedir autorização ou recursos ao governo. Para que precisariam dos planejadores? Para que precisariam dos distribuidores? Para que precisariam dos salvadores? Para que precisariam daqueles que reivindicam o direito de organizar suas vidas? O sucesso do indivíduo independente destruiria a justificativa moral e prática da elite que vive de administrá-lo. É por isso que a escassez possui uma utilidade política extraordinária. Onde existe abundância produzida livremente, o poder político perde importância. Onde existe escassez administrada, aquele que controla a distribuição se torna poderoso. Quem controla a comida numa sociedade faminta controla pessoas. Quem controla empregos numa sociedade sem iniciativa privada controla pessoas. Quem controla crédito controla pessoas. Quem controla moradia controla pessoas. Quem controla saúde controla pessoas. Quem controla educação controla pessoas. Quem controla aquilo de que os indivíduos foram impedidos de prover por conta própria controla suas vidas. O sistema cria a dependência e depois apresenta aquele que administra a dependência como benfeitor. Primeiro reduz a autonomia. Depois oferece assistência.

Primeiro restringe. Depois concede. Primeiro retira. Depois distribui. E aquilo que anteriormente era propriedade passa a ser chamado de benefício quando uma pequena parcela retorna às mãos de quem depende do sistema. O parasitismo ganha então sua inversão moral completa. Quem produz passa a dever. Quem toma passa a conceder. Quem depende passa a reivindicar direitos sobre quem produz. E quem administra aquilo que foi retirado dos outros aparece como agente da solidariedade.

É uma extraordinária operação de inversão moral. E existe uma imagem que revela essa inversão com uma clareza extraordinária. Quando defensores do comunismo ou do fascismo chegam ao poder e passam a usufruir da riqueza que amealharam por meio do parasitismo, costuma-se acusá-los de hipocrisia. Eles se hospedam em hotéis de luxo. Usam relógios caríssimos. Circulam em automóveis inacessíveis à população. Vestem roupas que seus súditos jamais poderiam comprar.Usam os melhores aparelhos eletrônicos. Comem nos melhores restaurantes. Viajam com conforto. Desfrutam de uma abundância que o próprio sistema tornou impossível para milhões de pessoas. E então alguém diz: “Vejam a hipocrisia. Pregam igualdade e vivem como milionários.” Mas talvez não haja hipocrisia alguma. Talvez estejamos novamente acreditando no discurso e ignorando a natureza do sistema. Essas pessoas nunca precisaram desprezar a riqueza. Precisavam desprezar o princípio segundo o qual a riqueza deve ser produzida por quem deseja possuí-la. Podem desejar intensamente conforto, luxo, poder, prestígio e abundância. O que rejeitam é a exigência moral de criá-los, produzi-los ou obtê-los oferecendo valores em troca. Essa é a ganância verdadeiramente imoral. Ganância não é querer possuir muito. Querer prosperar não é imoral. Querer uma casa melhor, um automóvel melhor, viajar, desfrutar de conforto ou acumular patrimônio não constitui parasitismo. Se alguém produz valores e os troca voluntariamente pelos valores produzidos pelos outros, ninguém foi sacrificado. O empresário que cria um produto. O profissional que oferece seu trabalho. O inventor que desenvolve uma tecnologia. O comerciante que aproxima comprador e vendedor. O trabalhador que oferece sua capacidade produtiva. Todos oferecem alguma coisa para receber alguma coisa. Produzem para consumir. O parasita quer romper essa relação. Quer receber sem oferecer. Quer consumir sem produzir. Quer distribuir sem criar. Quer comandar sem construir. Quer desfrutar da riqueza sem reconhecer o direito daqueles que a produziram. E quando conquista o poder político encontra finalmente o instrumento capaz de transformar esse desejo em sistema: a coerção.

 

Por isso, o luxo da elite coletivista não precisa ser interpretado como uma traição ao sistema. Pode ser sua expressão mais reveladora. O discurso fala em igualdade.

A estrutura produz uma hierarquia brutal entre aqueles que obedecem e aqueles que controlam. O discurso condena privilégios. O sistema entrega o maior de todos os privilégios: viver daquilo que os outros são obrigados a produzir. O discurso condena a ganância, mas instala no poder uma forma muito mais perversa de ganância:

a ambição de possuir sem produzir, consumir sem trocar e prosperar pela coerção exercida sobre alguém. Não é apenas hipocrisia. É parasitismo convertido em filosofia política. É a inveja transformada em virtude. É o ressentimento transformado em justiça. É a impotência cognitiva transformada em doutrina. É a coerção transformada em método. E é a apropriação da riqueza alheia transformada em sistema de governo. Por isso, quando vemos os dirigentes desses regimes cercados pela riqueza que negaram aos demais, talvez a pergunta não deva ser: "Como podem ser tão hipócritas?” A pergunta mais reveladora é: “E se foi exatamente para chegar ali que construíram tudo isso?” Nesse caso, o luxo do governante diante da pobreza dos governados não seria uma aberração acidental do sistema. Seria sua fotografia mais perfeita. E isso nos leva de volta à frase inicial:“ O socialismo fracassou.” Fracassou segundo qual padrão? Se esperávamos que produzisse uma sociedade de indivíduos livres, proprietários, autônomos e prósperos, certamente não produz isso. Mas por que deveríamos imaginar que um sistema fundamentado na subordinação do indivíduo ao coletivo teria como finalidade produzir indivíduos independentes do coletivo? É uma contradição. A pergunta correta é outra: o sistema produziu submissão? Criou dependência? Concentrou poder? Destruiu centros independentes de riqueza? Transformou cidadãos em dependentes econômicos? Concedeu a uma elite política, burocrática e ideológica o poder de decidir sobre aquilo que os outros produziram? Permitiu que essa elite prosperasse materialmente, politicamente e socialmente administrando recursos que ela própria não criou? Se produziu tudo isso, talvez estejamos chamando de fracasso aquilo que, para aqueles que vivem do sistema, é sucesso. E aqui está o ponto essencial: o sofrimento do hospedeiro não demonstra o fracasso do parasita. Pode demonstrar exatamente o contrário. Um parasita não existe para tornar seu hospedeiro mais forte, mais livre ou mais independente. Ele precisa apenas preservar o hospedeiro o suficiente para continuar extraindo dele aquilo de que necessita. Essa é a lógica de todo sistema parasitário. Ele não pode eliminar completamente quem produz, porque morreria junto, mas também não deseja que o produtor seja plenamente independente, porque perderia o controle sobre ele. Precisa mantê-lo produzindo. E precisa manter o poder de tomar parte daquilo que ele produz. Por isso o socialismo não precisa abolir completamente a propriedade privada para manifestar sua lógica. Não precisa estatizar todas as empresas. Não precisa colocar todos os indivíduos numa repartição pública. Basta estabelecer o princípio de que aquilo que alguém produz não pertence integralmente a quem produziu.

Basta aceitar que o Estado tenha precedência sobre a propriedade. Basta estabelecer que necessidades alheias constituem reivindicações sobre a produção de terceiros.

 A partir desse princípio, resta apenas discutir percentuais. Quanto o produtor poderá conservar? Quanto deverá entregar? Quem receberá? Quem decidirá? E quem administrará? A resposta para a última pergunta é sempre a mais importante. Porque entre aquele que produz e aquele que reivindica aquilo que foi produzido surge uma classe cuja existência depende da permanência dessa relação: a classe daqueles que administram a coerção. Políticos. Burocratas. Ideólogos. Corporativistas. Grupos de interesse. Beneficiários organizados. Todos disputando posições diferentes dentro da mesma estrutura de transferência compulsória.

 

Por isso essas ideologias não estão simplesmente “erradas” para aqueles que desejam prosperar liderando sistemas parasitários. Podem ser extraordinariamente eficientes. Oferecem poder. Oferecem recursos. Oferecem prestígio. Oferecem riqueza. E, mais importante, oferecem uma justificativa moral para tudo isso.

O governante já não toma. Ele “redistribui”. Não controla. Ele “protege”. Não cria dependentes. Ele “garante direitos”. Não vive da produção alheia. Ele “serve à sociedade”. E assim a coerção deixa de parecer coerção. Transforma-se em virtude. É por isso que comunismo e fascismo não devem ser condenados simplesmente porque são economicamente equivocados. Isso é pouco. São desumanos porque subordinam seres humanos concretos a abstrações coletivas. São malévolos porque transformam o sacrifício de alguns em virtude moral. São irracionais porque negam a realidade de que riqueza precisa ser produzida antes que possa ser distribuída e de que é a mente individual que pensa, cria, inventa e produz. E são politicamente sedutores porque oferecem àqueles que desejam comandar os demais uma das mais poderosas ferramentas já concebidas: uma justificativa moral para exercer poder sobre a vida e a propriedade dos outros. O socialismo não é perverso porque tentou libertar o indivíduo e fracassou. Não é perverso porque tentou produzir prosperidade e errou a receita. Não é perverso porque boas intenções produziram consequências inesperadas. Essa interpretação é generosa demais. O problema está na própria premissa. O coletivismo exige que o indivíduo deixe de ser um fim em si mesmo. Exige que sua vida possa ser subordinada. Que sua propriedade possa ser reivindicada. Que sua liberdade possa ser limitada. Que sua produção possa ser apropriada. Tudo em nome de uma abstração representada, inevitavelmente, por homens concretos que exercem o poder.

 

Por isso, talvez a frase mais equivocada de todas seja: “O socialismo fracassou.” Não. Para o parasita que prospera controlando o hospedeiro, o empobrecimento, a dependência e a submissão do hospedeiro não são sinais de fracasso.

São as condições de sua existência. O verdadeiro fracasso de um sistema parasitário seria produzir exatamente aquilo que ele não pode controlar: indivíduos livres, proprietários, produtivos, racionalmente independentes e conscientes de que suas vidas pertencem a eles mesmos.


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A TRAGÉDIA DOS IDIOTAS ÚTEIS E A FÍSICA DOS BALANÇOS - 18.08.26


Por Alex Pipkin

 

É compreensível que jovens recém-saídos de universidades, ainda encantados com a descoberta de que boas intenções aparentemente revogam restrições orçamentárias, acreditem que governos possam gastar, distribuir, subsidiar e estimular quase indefinidamente. A juventude também serve para isso.
O espantoso é encontrar economistas consagrados e grandes empresários acreditando na mesma metafísica.
A economia, essa senhora desagradável, possui um defeito de caráter, já que não se comove. Pode-se escrever um manifesto contra os juros, organizar um seminário sobre justiça social, culpar o Banco Central, o mercado ou a conhecida insensibilidade dos números. O balanço continuará fechando do mesmo jeito.
É a física dos balanços.
Durante anos, parte do empresariado brasileiro acreditou que dinheiro caro era uma perversidade fabricada dentro do Banco Central. Roberto Campos Neto tornou-se o vilão perfeito. Bastaria substituí-lo e o crédito voltaria a jorrar pelas torneiras nacionais.
Campos Neto saiu; Gabriel Galípolo entrou. A torneira não jorrou.
A pequena inconveniência chama-se realidade fiscal.
Enquanto Brasília gasta e fabrica despesas permanentes com a serenidade de quem imagina que dinheiro público nasce público, empresas precisam enfrentar uma vulgaridade chamada caixa. E o varejo, dependente de crédito, renda disponível e confiança, costuma descobrir antes dos intelectuais que juros não são uma opinião.
Casas Bahia acaba de anunciar recuperação judicial e o fechamento de cerca de 300 lojas, um terço de sua rede. Magazine Luiza enfrenta prejuízos. Famílias acumulam dívidas e inadimplência recorde. A aritmética, aparentemente, também aderiu à “extrema-direita”.
O mais delicioso, se não fosse tão caro, é assistir à elite empresarial e intelectual que ajudou a vender a fantasia descobrir uma velha crueldade da economia: idiotas úteis também pagam juros.
Eis a tragédia dos idiotas úteis. Foram úteis enquanto ajudavam a vender a fantasia. Tornaram-se idiotas quando descobriram que a fantasia também lhes enviaria o boleto.
Ideologias possuem uma extraordinária capacidade de sobreviver aos próprios fracassos. Sempre encontram uma narrativa nova. Balanços não.
O eleitor aceita explicações. O caixa exige dinheiro.
E na sua empresa, quem está pagando o boleto da fantasia?


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A INVERSÃO MORAL DA SOLIDARIEDADE -14.08.26


Por Alex Pipkin

 

Não tenho certeza. Certezas absolutas deixo para o divino e para aqueles, cada vez mais donos da verdade, que dispensam a dúvida.
Tenho, porém, uma convicção bastante resistente de que existe uma perigosa confusão moral nestes tempos de “nova consciência”, em que depender dos outros pode ser apresentado como solidariedade, enquanto desejar depender de si mesmo começa a adquirir a desagradável aparência de egoísmo.
Adam Smith jamais caiu nessa armadilha. Interesse próprio não é egoísmo. O homem smithiano deseja melhorar de vida, prosperar, cuidar dos seus, mas leva consigo o espectador imparcial, aquele juiz moral interno que nos faz enxergar nossa conduta pelos olhos dos outros. Temos empatia, limites e deveres, mas também carregamos uma responsabilidade que nenhuma boa intenção coletiva deveria apagar. Minha vida é, antes de tudo, minha responsabilidade.
Ninguém abre uma padaria para alimentar a humanidade. Abre porque deseja prosperar, mas, para isso, precisa fazer um pão que alguém queira comprar, atender bem, competir e servir para ser servido. O interesse é individual, o que não impede o benefício de chegar aos outros. Smith percebeu há séculos algo que nossa sofisticada “nova consciência” parece empenhada em esquecer.
Foi aí, desconfio, que começamos a trocar as placas. Responsabilidade passou a parecer insensibilidade, autonomia ganhou ares de egoísmo e dependência foi promovida a virtude social. O coletivismo começa pelo grupo, distribui identidades, culpas e direitos e, quando termina o serviço, sobra um indivíduo cada vez menor.
Essas ideias não ficam trancadas nas universidades. A Janela de Overton ajuda a explicar como atravessam a cultura, ganham respeitabilidade institucional e finalmente desembarcam na política, onde encontram profissionais especialmente atentos a tudo aquilo que possa ser convertido em voto.
Políticos, salvo raras exceções, não lideram o impopular. Preferem seguir o popular, atividade eleitoralmente mais saudável, e nem precisam acreditar na nova moral. Basta saber contar votos.
O Estado também sabe fazer contas. Cria um benefício novo, amplia a dependência, chama de avanço social e ganha, junto com a gratidão, mais um pedaço da autonomia que antes pertencia ao indivíduo.
Não se trata de abandonar quem verdadeiramente precisa de amparo, mas de recuperar uma ideia quase subversiva nestes novos tempos. Há dignidade em trabalhar, produzir, prosperar e responder pelas próprias escolhas.
O tecido social se esfacela quando chamamos de egoísmo o desejo de caminhar com as próprias pernas e de solidariedade o hábito de colocar a conta nas pernas dos outros.


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A IGNORÂNCIA CONSENSUAL - 12.08.2026


Por Alex Pipkin

 

Durante séculos, ser ignorante tinha uma explicação simples. Faltavam livros, escolas e acesso. Resolvemos boa parte disso, mas a ignorância não desapareceu. Pelo contrário. Ela se tornou mais sofisticada.

Nunca uma geração teve tanto conhecimento ao alcance das mãos. Em segundos, podemos confrontar teses, ler o contraditório, conhecer outras culturas, revisitar a história e, quem sabe, desarmar alguns dos nossos próprios preconceitos.

E o que fizemos com esse privilégio?

Refinamos a arte de filtrar o mundo.

Há algo além do velho viés de confirmação. Estamos aprendendo a ignorar em grupo. A isso chamo de ignorância consensual.

Incomoda-me ver o conhecimento reduzido a munição de trincheira. Usamos a história como estoque de pretextos, a sociologia como manual de condenação do vizinho e a psicologia como habeas corpus para nossos próprios vícios. É quase o avesso do conhecimento.

A sociologia deveria nos ajudar a compreender como convivemos. A antropologia, a descobrir o outro, a reciprocidade e culturas que não cabem na nossa. A psicologia, a desconfiar dos mecanismos escondidos atrás das nossas certezas. E a história deveria nos impor uma saudável humilhação. O mundo não começou conosco.

O conhecimento deveria aumentar nossa capacidade de duvidar de nós mesmos. Fizemos o contrário. Passamos a usá-lo para sofisticar nossas certezas.

Não acredito na fantasia da neutralidade intelectual. Todos temos convicções. Eu tenho as minhas.

O problema não é olhar o mundo através de uma lente. É retocar os fatos até que combinem com a armação. Uma convicção decente precisa sobreviver à realidade, não escolher qual realidade merece existir.

As redes sociais transformaram isso numa indústria. Encontramos milhares de pessoas repetindo o que pensamos e confundimos repetição com evidência, pertencimento com argumento e maioria na nossa bolha com verdade.

Não encontramos a verdade. Encontramos gente suficiente para não precisar procurá-la.

Pensar por conta própria deixou de ser apenas um exercício de inteligência. Tornou-se um teste de resistência à solidão. Discordar da própria turma custa mais do que atacar a turma adversária.

Por isso, conhecimento sem coragem intelectual vale pouco.

Conhecer de verdade exige ler quem nos incomoda, procurar o argumento capaz de demolir o nosso e admitir, sem drama, quando o “adversário” tem razão.

A ignorância mais perigosa já não é a de quem nunca entrou numa biblioteca.

É a de quem percorreu todas as estantes e voltou carregando apenas os livros que lhe deram razão.

Chamamos isso de informação.

O nome correto é ignorância consensual.

O ignorante de ontem desconhecia o mundo. O de hoje aprendeu a montá-lo para que sempre lhe dê razão.

 


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