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17 jul 2026

EM CLIMA DE COPA DO MUNDO


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EM CLIMA DE COPA DO MUNDO

Ainda que a Seleção Brasileira já tenha se despedido da -COPA DO MUNDO DE 2026-, o fato é que o -CLIMA DE COPA- segue impregnado na cabeça do povo brasileiro até o momento em que o árbitro da PARTIDA FINAL, que acontece neste final de semana, nos EUA., dará por encerrado o GRANDE TORNEIO. Pois, a propósito deste -CLIMA- eis aí o esclarecedor texto -O BRASIL QUE FISCALIZA TÉCNICOS, MAS ABSOLVE POLÍTICOS-produzido pela professora e coordenadora de pós-graduação na Uninter - Centro Universitário Internacional Uninter., Aline Mara Gumz Eberspacher.   


IDENTIDADE NACIONAL

A cada COPA DO MUNDO, o Brasil confirma um velho ditado: por noventa minutos, o país para. Ruas são enfeitadas, empresas interrompem o expediente, famílias se reúnem diante da televisão e milhões de brasileiros se transformam em comentaristas esportivos. Todos têm opinião sobre a escalação, a tática, a substituição que deveria ter sido feita ou o jogador que jamais deveria ter sido convocado. 

O futebol faz parte da IDENTIDADE NACIONAL e tem o poder de unir pessoas de diferentes classes sociais, religiões e ideologias. O problema não é essa paixão. O problema é perceber que o mesmo brasileiro capaz de decorar o elenco completo da Seleção dificilmente sabe quem são os deputados que representam seu estado, como votaram nas principais pautas ou quanto custa manter a máquina pública. 


NORUEGA

A eliminação para a NORUEGA, UM PAÍS FREQUENTEMENTE ASSOCIADO A ELEVADOS ÍNDICES DE DESENVOLVIMENTO HUMANO, EDUCAÇÃO DE QUALIDADE, BAIXA CORRUPÇÃO E ALTA RENDA PER CAPITA, poderia servir para algo além das análises esportivas e das discussões sobre futebol. Não porque exista uma relação direta entre desempenho em campo e esses indicadores, mas porque a comparação nos convida a refletir sobre as escolhas e prioridades de uma sociedade. 


TRIBUNAL NACIONAL

Quando a SELEÇÃO BRASILEIRA PERDE, inicia-se imediatamente um TRIBUNAL NACIONAL. O técnico é questionado, os jogadores são cobrados, especialistas analisam cada lance. Ninguém aceita a derrota sem procurar responsabilidades. 

Na política, acontece exatamente o contrário. Escândalos bilionários são esquecidos, promessas eleitorais evaporam sem cobrança e investigações complexas passam despercebidas. A indignação dura menos do que um campeonato estadual. 

Enquanto discutimos impedimentos e esquemas táticos, o Brasil segue enfrentando problemas estruturais que comprometem seu desenvolvimento há décadas.

Na EDUCAÇÃO, os números são alarmantes: no PISA 2022, metade dos estudantes de 15 anos ficou abaixo do nível básico de leitura, e o país permaneceu distante da média da OCDE em matemática e ciências.

No ÍNDICE DE PERCEPÇÃO DA CORRUPÇÃO DE 2024, o Brasil registrou sua pior posição: 107ª posição entre 182 países avaliados. E, mesmo com voto obrigatório, mais de 21% dos eleitores faltaram ao primeiro turno das eleições municipais de 2024. 


DISTRIBUIÇÃO DE ATENÇÃO

Esses dados revelam algo inquietante: o problema do Brasil não é apenas a corrupção, a baixa qualidade da educação ou a crise de confiança nas instituições. O problema também está na forma como nós, cidadãos, escolhemos distribuir nossa atenção. 

Somos extremamente exigentes com ONZE JOGADORES E O TÉCNICO, mas tolerantes com CENTENAS DE POLÍTICOS que administram bilhões de reais. Sabemos quantos gols marcou o centroavante, mas ignoramos quantos projetos apresentou o deputado em quem votamos. Memorizamos a tabela da Copa, mas não acompanhamos a votação do orçamento que define o futuro da cidade onde vivemos. 

Talvez essa seja a maior vitória da classe política: convencer a sociedade de que discutir política é desagradável, perigoso ou “coisa de especialista”. Nas famílias, recomenda-se evitar o tema. Nas escolas, ele é tratado com receio. Nas redes sociais, qualquer debate sério vira torcida organizada. 


PÃO E CIRCO

Nesse contexto, vale lembrar a célebre frase atribuída a Júlio César: “DÊ ÀS PESSOAS PÃO E CIRCO; certifique-se de que suas barrigas estejam cheias e que elas tenham algo para ver e se distrair. Assim, elas não tomarão as ruas para protestar.” A provocação permanece atual ao nos fazer questionar quanto tempo dedicamos aos grandes espetáculos e quanto dedicamos aos debates que realmente influenciam o futuro do país. 

Porque futebol desperta paixão, mas não decide o preço dos alimentos, a qualidade da escola pública, o atendimento no hospital ou a segurança das cidades. Quem decide isso não veste camisa amarela nem entra em campo aos domingos. Veste terno, toga, ocupa cargos públicos e toma decisões todos os dias.  

A Copa termina em poucos dias. Os efeitos das decisões políticas permanecem por décadas. Talvez seja hora de entendermos que o futuro do Brasil será definido muito menos pela escalação da Seleção e muito mais pela qualidade da fiscalização exercida por seus próprios cidadãos. 


ESPAÇO PENSAR +

No ESPAÇO PENSAR+ de hoje: O DIA EM QUE ALUGAMOS A CONSCIÊNCIA, por Alex Pipkin. Confira: https://www.pontocritico.com/espaco-pensar