Por Alex Pipkin, PhD em Administração
O debate fiscal brasileiro adquiriu uma estranha assepsia burocrática. Fala-se sobre dívida, déficit e juros como médicos discutindo colesterol diante de um paciente em falência múltipla dos órgãos.
O país atravessa uma deterioração fiscal contínua, mas parte relevante da elite política e intelectual parece acreditar que tudo ainda pode ser administrado com mais arrecadação, mais endividamento e mais retórica emocional.
O que testemunhamos em Brasília já ultrapassou a esfera da irresponsabilidade técnica e entrou no território mais perigoso da decadência; o da normalização do desequilíbrio.
A maior fraude intelectual da política econômica contemporânea foi transformar prudência fiscal em sinônimo de insensibilidade social, enquanto o endividamento permanente passou a ser embalado como virtude humanitária. Gastar o que não se tem se transformou em demonstração de empatia. A conta futura foi moralmente terceirizada.
O dinheiro, porém, é agnóstico. Não se emociona com discursos palacianos, não lê manifestos partidários e tampouco se curva à liturgia emocional do populismo.
Ele apenas calcula risco, previsibilidade e possibilidade de retorno. Quando um país passa a tratar expansão contínua de gastos, aumento da dívida e hostilidade à disciplina fiscal como método de governo, o capital exige distância de segurança.
É nesse momento que surgem os juros sufocantes, o crédito restritivo, o investimento reprimido, a moeda fragilizada e o crescimento medíocre.
A ironia cruel é que os mais pobres, diariamente utilizados como justificativa moral para o expansionismo estatal, acabam sendo precisamente os mais esmagados por seus efeitos. O salário evapora silenciosamente na gôndola do supermercado enquanto o pequeno empresário paralisa contratações e a classe média mergulha em endividamento, enquanto a inadimplência avança como sintoma silencioso de uma sociedade empurrada para o endividamento defensivo.
Usar os pobres como justificativa emocional para um modelo que corrói silenciosamente seu poder de compra não é compaixão social. É parasitismo fiscal com verniz humanitário.
O Brasil transformou o futuro em ativo liquidável para financiar o presente.
Toda decadência profunda começa quando o absurdo deixa de produzir espanto.