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O DISFARCE CANSOU DE DISFARÇAR - 02.10.26


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Por Alex Pipkin

 

Uma sociedade livre não exige que todos concordem. Exige algo muito mais rasteiro: que a regra continue sendo regra mesmo quando produz o resultado que a gente odeia.
No Brasil, a gente sofisticou a conveniência e chamou de jurisprudência.
A Globo combinou as regras do debate com os partidos. O PT concordou. Candidato ausente teria o púlpito identificado e levaria pergunta sem resposta. Combinado antes do jogo, na frente de todo mundo.
Lula resolveu não ir. Aí aconteceu o “milagre jurídico”. Na véspera, a regra descobriu que estava errada.
A campanha petista recorreu. Horas antes do debate, a ministra do TSE Estela Aranha suspendeu justamente a parte que exporia a ausência do presidente. A emissora cancelou e falou em insegurança jurídica. Sim, até a Globo falou.
Até aqui já seria vexame suficiente. O Brasil, porém, faz questão do bis.
Circula vídeo, divulgado como sendo de 2022, em que a própria magistrada declara voto em Lula e conclama advogados a fazer o mesmo. Depois foi secretária de Flávio Dino, trabalhou na Presidência e acabou indicada pelo próprio Lula ao TSE. Agora, em plena eleição, decide pedido da coligação do presidente que a indicou. Qualquer semelhança, claro, é apenas coincidência.
A parcialidade nem se dá ao trabalho de usar véu.
Isolado, cada episódio sempre arruma um malabarismo jurídico para se sustentar. O que não existe é borracha para apagar o conjunto da obra.
Esse é o verdadeiro escárnio. Exige-se que o cidadão finja que é idiota. Que não enxergue quem decide, de onde veio, quem indicou e a favor de quem a caneta produz efeito.
Juiz tem preferência política, óbvio que tem. O inacreditável é achar normal o eleitor ver essa preferência estampada na camisa de quem apita a partida.
A conta chegou e veio rasgando. Segundo o Datafolha, 48% dos brasileiros não confiam no Supremo. Recorde histórico. O maior índice de desconfiança entre oito instituições pesquisadas.
Brasília pode chamar isso de “incompreensão popular”. É o velho truque do poder arrogante; quando o cidadão deixa de confiar, o problema passa a ser o cidadão.
Autoridade não vem de toga, de prédio monumental ou de voto de 80 páginas. Vem da crença quase ingênua de que a regra vem antes do estômago de quem a interpreta.
Quando essa crença rui, não sobra Justiça.
Sobra poder com toga e caneta.
O púlpito vazio foi proibido na marra.
O vazio de imparcialidade, não. Esse ficou escancarado em rede nacional.
Domingo saberemos o que o eleitor viu no debate que Brasília não deixou acontecer.
Tudo, evidentemente, em defesa da democracia.