Por Alex Pipkin, PhD em Administração
A corrupção no Brasil não é um acidente histórico nem um desvio ocasional.
Ela se impõe com a clareza de um raio de luz atravessando um céu limpo. Ainda assim, o país insiste em tratá-la como surpresa. Procrastina, relativiza, contorna, e, ao fazê-lo, transforma o previsível em rotina do atraso.
No setor privado, problemas graves não se resolvem empurrando-os para debaixo do tapete. Empresas que sobrevivem aprendem a antecipar falhas.
Uma das técnicas mais eficazes para isso é a Análise Pré-Mortem. Parte-se do fracasso como hipótese, simula-se o erro antes que ele aconteça e expõem-se as causas reais. Não se trata de pessimismo, mas de técnica e lucidez. Antecipar o desastre é a forma mais racional de evitá-lo.
Transportada para o setor público, essa lógica revela um contraste incômodo. No país, os pontos de falha são conhecidos de antemão. Entre esses, captura regulatória, promiscuidade entre poder político e grandes interesses econômicos, ausência de punição efetiva, instabilidade institucional permanente. Nada disso é invisível. O problema nunca foi diagnóstico; sempre foi decisão.
O país se especializou no ritual da reação tardia. Operações rumorosas, pacotes legislativos apressados, ciclos previsíveis de indignação. Produzem manchetes, mas, em terras verde-amarelas, raramente produzem aprendizado. Falta o passo essencial, o de usar o conhecimento acumulado para redesenhar incentivos e fechar as brechas antes que o sistema volte a falhar; como sempre volta.
A Lava Jato foi, com todos os seus limites, uma tentativa inédita de aplicar esse princípio. O objetivo era o de investigar causas estruturais, expor mecanismos, alterar expectativas. O que veio depois confirma a tese do pré-mortem às avessas. Em vez de corrigir as falhas reveladas, o sistema tratou de neutralizar quem as expôs. Quando a lição ameaça os donos do poder, o aprendizado é sufocado.
Há um agravante institucional. A cada quatro anos, mudam presidentes, ministros, cargos de confiança. Isso é próprio da democracia. O que não pode mudar é o compromisso técnico, a integridade dos processos e a memória institucional. Quando cada transição equivale, na prática, a um recomeço, institucionaliza-se a descontinuidade estrutural, sendo esse o terreno perfeito para a corrupção persistir.
Incentivos moldam comportamentos. Eles estão nas normas, nas práticas e nas leis. Se o sistema não funciona, o Legislativo deveria ter a obrigação de corrigi-lo. Se as regras são burladas, a punição precisa ser certa e exemplar. Sem isso, o recado é inequívoco conhecido e acionado. Ou seja, compensa violar.
O resultado é devastador. Um país de impostos escorchantes, serviços precários e cidadãos reduzidos a financiadores passivos de uma elite especializada em extrair renda.
Não é apenas ineficiência; é uma violação cotidiana da dignidade individual.
Países não são derrotados pelo que não enxergam, mas pelo que enxergam com nitidez e, ainda assim, toleram. Enquanto o Brasil adiar o enfrentamento das suas falhas previsíveis, o futuro deixará de ser promessa para se tornar apenas o lugar onde os mesmos erros voltam a nos esperar.
A corrupção brasileira não persiste por falta de diagnóstico, mas por escassez de coragem decisória.
Repito. O erro é previsível; a reincidência, uma escolha.
Um país que escolhe conviver com o erro deixa, lentamente, de ser uma nação, tornando-se apenas um sistema de repetição, que se alimenta da sociedade sem jamais servir a ela.
Por Paulo Polzonoff, da Gazeta do Povo
Estou boquiaberto. Nada menos do que boquiaberto. Tipo mocinha de romance barato ao ver o namorado com outra, sabe? Patética e ridiculamente boquiaberto. E tudo por causa de Alexandre de Moraes. E de José Dias Toffoli.
Os dois ministros do STF protagonizaram na tarde de quarta-feira (4) uma das cenas mais... Que palavra posso usar aqui e que já não tenha sido usada à exaustão ainda? Deploráveis, abomináveis, detestáveis, pornográficas, vergonhosas, escandalosas, ignóbeis, deprimentes?
Nojo
Não! Acho que tem que ser algo mais visceral. Algo que dialogue com essa ânsia de vômito que sinto. Se é que a Constituição ainda me garante o direito de sentir. Algo que tenha o mesmo gosto de fel.
...uma das cenas mais nojentas a que tive o desprazer de assistir no plenário da corte em que se transformou a instituição atualmente presidida por Edson Fachin, mas controlada por Alexandre de Moraes. Um homem que já morreu por dentro. Não é possível!
Num diálogo em que expôs toda a degradação de seus valores morais e, por tabela, os de toda a magistratura, Alexandre de Moraes reclamou. Reclamou que quer ganhar mais e quer ganhar sem ser incomodado por essa gentinha que somos nós. Reclamou que quer ser ainda mais rico e mais poderoso. E deixou claro que se recusa a ser contido por um codigozinho de ética mequetrefe.
Não são!
Em outras palavras, Alexandre de Moraes confessou assim, des-pu-do-ra-da-men-te, que só é ministro do STF para satisfazer suas necessidades pessoais de dinheiro e poder. E quem criticar isso está agindo de má-fé. Um absurdo apoiado por Dias Toffoli. Aquele.
Mas não foi só isso. Como alguém que mede o mundo por sua régua torta, Moraes aproveitou para atribuir essas suas necessidades mesquinhas a toda a magistratura. Como se todos os juízes fossem uns pulhas que ocupam os tribunais apenas para engordar a conta bancária.
Claro que não são. Não são, mas parecem. E se parecem é porque Alexandre de Moraes assim os mostra. Porque é assim que Alexandre de Moraes os vê. E não sou eu que estou dizendo, não! Não adianta brigar comigo. Foi o próprio ministro quem disse, para todo mundo ouvir.
É justo?
Por causa dele, Alexandre de Moraes, é assim que os magistrados são vistos pela sociedade: como uns parasitas. O que não são. Já disse que não são! Agora me responda: é justo com os ministros vocacionados? (Se é que eles existem mesmo).
A pergunta que nos resta fazer é esta: os magistrados que foram descritos por Alexandre de Moraes como pessoas para as quais a magistratura é apenas um meio de se ganhar (ainda mais) dinheiro e acumular (ainda mais) poder vão ficar quietos?
Me digam que não!
Quer dizer que vai ficar por isso mesmo, Fachin? Que Alexandre de Moraes tem razão quando mede o mundo jurídico por essa métrica que é qualquer coisa, menos virtuosa? (E pensar que, há alguns anos, o ex-ministro Marco Aurélio Mello foi enfático ao dizer que não existem semideuses a ocupar a cadeira de juiz. Ahã).
Será que, no fundo, ou nem tão no fundo assim, todo juiz é apenas um empreendedor ou político frustrado, e não está nem aí para essa tal de justiça – como, aliás, me alertam há anos os cínicos? Espero que não. Rezo para que não. Por favor, me digam (e me provem) que não.
Cancro supremo
Por isso é que digo e repito, mesmo que não me leiam, mesmo que revirem os olhinhos e mesmo que alguns fiquem boquiabertos com minha ingenuidade intencional ou idealismo residual: enquanto ficarmos apenas passando Merthiolatezinho nas pústulas fétidas na pele do sistema, a doença de fundo (a ausência de homens virtuosos ocupando cargos de poder) vai continuar se espalhando pelo corpo.
E uma hora isso vai nos matar. Nem que seja de cansaço.
Ou impedimos a degradação total dos valores morais, fomentando uma cultura voltada para as virtudes, e não para o dinheiro, dinheiro, dinheiro, ou seguiremos assim, revoltados e empapando rolos e mais rolos de gaze no pus desse cancro supremo. Ou master, sei lá.
Ca...
E se você acha que esta crônica está panfletária demais é só porque você não está sentindo o mesmo nojo que eu. E que bom! Quem sabe assim você consegue digerir o café da manhã. Porque o meu não desceu.
Enquanto isso, Alexandre de Moraes dorme. Não exatamente tranquilo, mas dorme. E amanhã ele acordará se sentindo ainda mais poderoso, ainda mais rico e ainda mais convencido de que textos como este são pura má-fé. Coisa de invejoso, talvez. Quando não um atentado ao Estado democrático de direito por ele personificado.
Ca... Deixa para lá. Não vale a pena.