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A PARTEIRA DO ATRASO - 08.02.21


por Percival Puggina

 

 

         Aprendi de guri que os alunos mais dedicados aos estudos eram aqueles que disputavam – disputavam mesmo – os primeiros lugares da turma. Eu não estava em nenhuma competitiva e estressada metrópole capitalista.  Ninguém na turma sonhava com ser um figurão entre os tigres asiáticos ou em Wall Street. Éramos apenas meninos e meninas dos anos 50, em Santana do Livramento, no extremo sul do Brasil. Mas estudávamos muito e disputávamos notas. Nota ruim forçava a busca de nota melhor na prova seguinte, chamada “sabatina” (embora fosse mensal).

         Aquela experiência escolar, vivida no antigo curso primário – hoje ensino fundamental –, em escola pública, valeu-me para a vida. Compreendi então, desde criança, que o progresso e o sucesso têm tudo a ver com esforço e quanto maior ele for, maior tende a ser o resultado. Foi o que me tornou adepto da valorização do mérito. A União Soviética, a extinta URSS, exigiu muito empenho dos Estados Unidos para acompanhar seus avanços tecnológicos na corrida armamentista e espacial. Por quê? Porque havia muita coisa em jogo. O resto do país era um retrato do fracasso comunista, mas havia na URSS um nível de excelência em torno dessas atividades.

         Cuba, não deixava por menos. Seus atletas costumam ser feras em competições internacionais. Por quê? Porque na sociedade cubana, na Cuba da libreta “provisória” de racionamento, que já conta 60 anos de existência, os atletas de ponta têm acesso a alimentos que o restante da população não consegue comprar. Nos países comunistas, o mérito esportivo alivia os penares da existência. Ademais, a vitória é instrumento de propaganda de regimes que sobrevivem à custa da propaganda. Resumindo: em países sob regime totalitário de viés marxista podem surgir áreas de excelência, mas isso só ocorre se há algo sendo disputado.

***

         Dirigente de um sindicato de servidores, em nota sobre o projeto de Reforma Administrativa enviada pelo governo ao Congresso, declarou: “Precisamos nos mobilizar contra essa proposta vergonhosa, que retira direitos dos futuros servidores públicos, com avaliações duvidosas para obtenção de estabilidade e aposta na meritocracia, prática antidemocrática e perigosa para a administração pública”.

       Ou seja, que tudo fique como está ainda que a sociedade permaneça superonerada e mal atendida. A avaliação de desempenho, tão comum nas empresas privadas, é habitualmente recusada no serviço público sob a alegação de que grupos diferentes e indivíduos diferentes são incomparáveis em suas circunstâncias, limitações e possibilidades. Todos deveriam recebem um bom salário e ponto final. Confunde-se avaliação de desempenho com comparação entre pessoas.

         Não preciso dizer em que ponta do time joga a autora da declaração. Sua tese tem tudo a ver com o pensamento que subtrai quanto pode de quem produz muito e transfere para quem produz pouco até que ninguém produza mais (não estou negando a necessidade de políticas sociais). As consequências teoricamente previsíveis são bem verificáveis na vida real. Mas a tese tem penetração e acolhimento porque, apesar da profunda perversão que produz, se reveste com o manto de suposta justiça, bordado nas cores da benevolência.  No fundo, é a tal absorção da ideia de justiça pela de igualdade.

         Portanto, quando se automatizam as promoções funcionais, desvinculando-as do merecimento, quem resulta automatizada é a mediocridade. No mundo de qualquer época, a mediocridade é parteira do atraso. Queira Deus que o Congresso Nacional perceba que suas responsabilidades têm prioridade sobre seus interesses eleitorais!

 

* Publicado originalmente em Conservadores e Liberais, site de Puggina.org


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Fim da Lava Jato: Moro será homem de sorte se não acabar preso - 05.02.21


por J.R. Guzzo, artigo publicado na Gazeta do Povo

 

Depois de sete anos de trabalhos, a força-tarefa da Lava Jato de Curitiba foi encerrada pelo procurador-geral Augusto Aras.| Foto: Antônio More/Arquivo Gazeta do Povo

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Durante sete anos, o Brasil não foi o Brasil. Esteve em operação, ao longo desse tempo, a Lava Jato – e a Operação Lava Jato era exatamente o contrário da política brasileira como ela sempre foi. No Brasil da Lava Jato os políticos e os demais corruptos, de todo porte e espécie, se arriscavam a ir para a cadeia. Foram presos um ex-presidente da República, o dono da maior empresa de obras públicas do país, governadores de Estado, um ex-presidente da Câmara dos Deputados e por aí afora. Os próprios ladrões se comprometeram a devolver aos cofres públicos R$ 15 bilhões da montanha de dinheiro que tinham roubado.

 

Em qualquer país sério é precisamente assim que as coisas se passam; lei é lei, e tem de ser aplicada para todos. Só que o Brasil não é assim. A vida pública, na verdade, é o contrário disso. A Lava Jato, enquanto durou, refletiu um país que não existe. Nada mais natural, assim, que ele voltasse à sua verdadeira natureza. É o que acaba de acontecer, oficialmente, com a dissolução formal da operação toda, por ordem de ninguém menos que o próprio procurador-geral da República Aí sim. Eis, enfim, o Brasil de novo sendo como o Brasil realmente é: o chefe dos investigadores decide que é proibido investigar.

 

A Lava Jato sempre foi a principal inimiga dos que mandam no Brasil: gente da política e do governo, seus parentes e amigos, empreiteiros de obras, fornecedores do Estado, donos de empresas estatais, altos barões do Judiciário e empresários que vivem do Tesouro Nacional. Seu grande objetivo na vida, nesses sete anos, foi acabar com a Lava Jato; todos, nesse bonde, têm um sistema natural de rejeição à honestidade.

 

No começo, com medo do imenso apoio popular às novas regras, o mundo oficial fingiu que apoiava a operação. Depois, com o tempo, passaram a aparecer queixas de que estaria havendo “exageros” nas investigações e sentenças contra os corruptos. Mais um pouco, as reclamações viraram uma guerra aberta e sem quartel; a Lava Jato, no fim, estava sendo acusada em pleno Supremo Tribunal Federal de criar “um regime de exceção” no país, a “República de Curitiba”.

 

Foi um momento de exceção, de fato: pela primeira vez em sua história, possivelmente, a Justiça e o aparelho de Estado brasileiros consideraram que roubar dinheiro público era ilegal. Assim que foi possível voltar à vida de sempre, naturalmente, eles voltaram: enterrar a Lava Jato sempre foi o objetivo número 1 das elites brasileiras, seja no governo Lula-Dilma, seja no governo Temer, seja no governo Bolsonaro – a cujo procurador-geral, no fim, coube a grande honra de dar o tiro de misericórdia.

 

Do jeito que vão as coisas, o ex-juiz e ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, será um homem de sorte se não acabar preso.


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A ESTUDANTE E A “PROVA LAICA” - 03.02.21


 

por Percival Puggina
 
         Transformando suas aulas em verdadeiros ritos sacrificiais, certos professores imolam a política, a filosofia e a história com o objetivo final de apequenar as mentes e conquistar os corações dos alunos para “a causa”.

Exagero? Infelizmente não. A Educação em geral e as universidades em particular são um cacife político importantíssimo, no Brasil como em Cuba. Quantos atos de formatura dão prova pública do que afirmo? Estes tempos de covid-19, suspenderam tais solenidades. No entanto, até 2019, como legado dos anos de hegemonia revolucionária, formaturas foram virando comícios políticos. Os convidados, engravatados por respeito ao ato solene, enfrentavam o calor do verão em homenagem a formandos que aproveitavam o público para desabafarem suas animosidades políticas. Era festejado como triunfo o que deveria ser interpretado como confissão de culpa do sistema e expressão ruidosa da obstinada imposição de silêncio à divergência. O pluralismo e a universalidade deixaram de ser inerentes a muito ambiente acadêmico.

         A dita “defesa da autonomia” deve ser entendida, principalmente, como defesa da hegemonia. Para isso, mobilizam-se as universidades federais com o intuito de impedir que o presidente da República exerça prerrogativa a ele conferida pela lei e escolha, de listas tríplices, os nomes de sua preferência. Preservação da autonomia? Não, mecanismo de autoproteção porque é ali, como bem observou José Dirceu, que se conquistam os corações e as mentes.

***

Apenas portais e sites católicos noticiaram o fato que dá título a este artigo. Uma estudante foi obrigada pela fiscal do ENEM a retirar o escapulário e uma dezena do rosário que trazia ao pulso como condição para poder participar da prova. Alegação lacradora: “A prova é laica!”. Li a notícia no excelente Tribuna Diária, acrescida da informação: “A Associação Nacional dos Membros do Ministério Público acionou o MP/SP para que instaure representação por crime de preconceito religioso, etc.”.

Pois foi exatamente sobre esse tipo de objetivo político/ideológico que escrevi o artigo “Sem virtudes, sem valores e sem vergonha” (1). Para arrastar a sociedade de um país essencialmente cristão na direção de um regime totalitário é necessário investir contra o cristianismo presente no espaço público, em nome da laicidade do Estado. Por quê? Porque convence as pessoas de que a fé é inerente ao indivíduo e tem dimensão privada, incompatível com o Estado e os espaços públicos. Na sequência, facilitado por esse “entendimento”, ganham caráter relativo e subjetivo também os princípios e valores correspondentes a essa fé, que perderiam, assim, o direito de se manifestar publica ou politicamente.

Como consequência, questões envolvendo princípios e valores morais se tornam prerrogativa do Estado (confiram com as falas de ministros do STF). Tal receita nos leva em marcha batida à perda das liberdades e ao totalitarismo. Ele já se expressa, entre nós, na rejeição ao Direito Natural e no silêncio imposto a Aristóteles, Tomas de Aquino, Francisco Suárez e a tantos filósofos conservadores e liberais contemporâneos. A toda divergência, enfim.

É o laicismo assumindo-se como artefato bélico da revolução cultural, cujo objetivo é bem conhecido.

* Publicado originalmente em Conservadores e Liberais, o site de puggina.org

(1)
https://www.puggina.org/artigo/sem-virtudes,-sem-valores-e-sem-vergonha__17352*


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CHINA - 27.01.21


por Roberto Rachewsky

 

Sabe-se que a pessoa é ignorante ou é dogmática quando ela desconsidera o que a China fez em apenas 40 anos, e ainda a chama de comunista. De comunista, na China, só restou o nome do partido único que a governa. Partido este que tem 90 milhões de membros, várias vertentes ideológicas e que agora está sendo liderado por um sujeito autoritário.

 

Esses mesmos dizem que a liberdade econômica não produz liberdade política. Mas o que é a liberdade econômica se não liberdade política? Liberdade de expressar o que se pensa e agir como se pensa também enseja manifestações econômicas que resultam na criação de valores. Comunismo foi o sistema social, político e econômico vivido pelos chineses entre 1949 e 1978, ano em que o povo chinês foi liberado para produzir e prosperar.

 

A China possui um governo autoritário que limita os direitos individuais? Sim. No entanto, apesar disso, se é muito mais livre para florescer e prosperar lá do que aqui no Brasil, um país governado por uma elite parasitária e patrimonialista que quer controlar todos os aspectos da vida dos cidadãos brasileiros impedindo-os de criarem e manterem os valores que os permitiriam buscar e realizar a felicidade que almejam.

 

Aqui temos mais de 30 partidos e não um, mas o que se vê é que no poder alternam-se partidos que desenham um governo ainda mais autoritário do que o chinês. Ou vocês acham que ser governado por social-democratas e petistas é o auge do exercício da liberdade? Então, para os ignorantes e dogmáticos ressalto que ninguém está exaltando o regime autoritário que se criou a partir de 2008.

 

O que eu estou oferecendo aos recalcitrantes é a chance de perceberem duas coisas: que a China não é comunista, ainda que viva sob um regime autoritário; e, que liberdade econômica é produto e parte da liberdade política. Dizer que a China está melhor depois que abandonou o comunismo não significa dizer que eles já alcançaram a plena liberdade, mas que a liberdade mais importante que é poder ser produtivo para realizar seus sonhos e não morrer de fome, foi devolvida desde 1978.


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A bicicleta, o computador e o governo - 26.01.21


  por Roberto Rachewsky

   

    Quando em 1980, a Apple abriu seu capital ao mercado, cada ação foi oferecida por US$ 22,00 e durante o pregão acabou valorizada em 32%, alcançando quase US$30,00 naquele mesmo dia.

   

Hoje, se não tivessem sido divididas, o valor de cada uma daquelas ações seria de mais de US$530.000,00. Ao ganho expressivo de mercado, deveríamos acrescentar o que a empresa pagou de dividendos aos seus acionistas ao longo desses 42 anos, o que não foi pouco. Naquele mesmo ano, Steve Jobs, um dos maiores gênios que a humanidade já conheceu, explicou em uma palestra que está disponível na Internet, o que seria o computador para o ser humano e que desafios ele, Steve Jobs, teria pela frente para transformar aquele bem num instrumento de eficiência máxima.

 

Steve Jobs fez uma analogia, relacionando o que seria um computador para a mente humana com o que foi a bicicleta para o nosso corpo. O fundador da Apple citou um estudo que comparava a relação entre distância percorrida em quilômetros e o consumo de energia em calorias de diversas espécies de animais, inclusive o homem. Segundo esse estudo, o condor era o mais eficiente animal entre todos os analisados porque era o que gastava menos energia para se locomover em uma distância quilométrica. O homem ficava no terço inferior da lista porque a relação entre distância percorrida e gasto calórico era muito pobre. Steve Jobs mencionou também que alguém havia resolvido fazer esse mesmo estudo, porém com um homem usando uma bicicleta, mais um instrumento fruto da engenhosidade da qual apenas nós, seres humanos, dispomos.

 

O resultado obtido fez com que o homem superasse o condor deixando-o em segundo lugar naquela lista, com um resultado bem inferior ao do ciclista. Além desta evidência científica de como instrumentos podem fazer o ser humano superar suas limitações físicas naturais, Steve Jobs narrou suas próprias observações experimentais quando apresentava sua invenção magnífica, o computador da Apple, para diferentes públicos com diferentes habilidades e variadas demandas para aquele produto. Steve Jobs observou que especialistas aproveitavam a sua invenção de maneiras que nem ele havia imaginado. Fosse no campo da engenharia, da agricultura, da educação, das finanças, o computador se mostrou um bem universal que ampliava N vezes a eficiência na solução de problemas de acordo com a complexidade de cada especialidade para a qual ele servia.

   

Não foi apenas isso que o visionário empreendedor percebera. Ele notou que a dificuldade em lidar com o equipamento era inversamente proporcional à idade do público. Steve Jobs notou que crianças entre 10 e 12 anos tinham muito mais facilidade para se familiarizarem com o equipamento do que os adultos que viam no instrumento em si um problema adicional a ser superado para que ele pudesse se tornar um aliado na solução dos problemas originais, objetivo para o qual o computador havia sido criado. Steve Jobs fez referência ao estudo da bicicleta e a suas observações para dizer, lá nos idos de 1980, que seu maior desafio seria eliminar o fator problema inerente ao uso do computador como instrumento, fazendo com que ele se transformasse numa experiência sem demanda intelectual mas também que fosse agradável para o usuário.

 

Os números econômicos e financeiros da Apple e o impacto que ela teve para eliminar ou reduzir a pobreza no mundo, provam que Steve Jobs fez um diagnóstico preciso, como também conseguiu solucionar o problema de ineficiência na relação entre o beneficiário e o bem em questão, o próprio computador criado para solucionar problemas de uma maneira que, sem ele, a mente humana jamais conseguiria realizar. Saber neutralizar os problemas tecnológicos intrínsecos que existem em tudo aquilo que é criado pelo homem, saber superar os paradoxos de toda invenção humana para que os problemas causados por essa criação, não apenas não superem seus benefícios, como, idealmente, eles sejam eliminados de maneira que os usuários não tenham que enfrentá-los, tem sido uma dificuldade que para a humanidade quando se trata em resolver a questão da violência existente em qualquer sociedade.

 

Assim como é possível ao ser humano criar bicicletas ou computadores para beneficiar bilhões de pessoas, é possível produzir instituições para eliminar ou pelo menos diminuir a violência, a iniciação do uso da coerção, força ou fraude, do seio das sociedades. O governo limitado à defesa dos direitos individuais, projeto ensaiado e colocado em prática pelos pais fundadores dos Estados Unidos da América, tinha como objetivo resolver o problema da violência através de um intrincado sistema de leis, regulamentos e financiamento que visava proteger os Steve Jobs da vida de serem explorados de forma vil pelos imorais que pilham para saciar suas necessidades usufruindo do butim. No entanto, falhas no projeto, bugs e vírus na forma de políticos, burocratas e parasitas sociais transformassem esse instrumento de promoção das relações sociais pacificas, baseadas na confiança, numa tecnologia que acabou por despender tanta energia, gerando tanto sofrimento, que tornou-a em muitos casos um problema maior do que aquele para o qual foi criado para solucioná-lo.

   

Steve Jobs conseguiu eliminar o problema que envolvia a operação do instrumento que criara para ajudar os indivíduos a solucionar os seus próprios problemas sem terem que enfrentar um novo. Depois de 2500 anos de filosofia, de democracia, de república, de constitucionalismo, de parasitagem, de trevas, de iluminismo, de criação de valor, já temos conhecimento suficiente para criar um sistema político que se encarregue de eliminar o mal da coerção da sociedade, basta os bons conseguirem vencer os maus, nem que seja pelo próprio uso da coerção que se quer eliminar, coisa que também já experimentamos e não foi a muito tempo atrás. Um bem universal como um computador da Apple ou um iPhone, promove cooperação e trocas voluntárias que resultam em benefícios mútuos para os que se engajam livremente no processo de criação, manutenção e consumo de valor.

 

Para o governo ser implementado como um bem necessário, ele precisa ter essas mesmas características, acreditar que numa sociedade pacífica, baseada na confiança, apenas cooperação espontânea e trocas voluntárias são moralmente válidas; e que, para isso, é preciso que o governo se restrinja apenas à proteção dos direitos individuais inalienáveis, como o direito à vida, à liberdade, à propriedade e à busca da felicidade, sendo o governo uma tecnologia amigável, eficaz na eliminação do problema da violência, sem que ele próprio se torne o problema para o qual foi criado como instrumento de solução.

 

Sociedades onde o governo despende menos energia da sociedade, onde a regulação e a taxação são menores, sendo, portanto, o governo mais amigável e mais eficaz, o ser humano vive melhor porque pode aproveitar sempre mais o seu potencial físico e mental para criar, manter e consumir valor de forma moralmente válida para os ser racional que somos. Foi esse princípio que fez da Apple, da Amazon, da Microsoft e tantas outras, as líderes nos seus mercados. O Brasil como sociedade está no terço inferior da eficiência porque ainda não inventamos a bicicleta aplicada à governança estatal para a eliminação da violência do nosso país. Pelo contrário, o equipamento que criamos, nos impede de ter a mobilidade social que vemos em outros lugares e muitas vezes vemos que o equipamento que escolhemos nos move para trás e para baixo.


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O CONJUNTO DA OBRA - 25.01.21


por Percival Puggina
 
A mensagem que abri vinha do site O Antagonista, assíduo frequentador de minha caixa de e-mails, e reproduzia o título de capa da revista Crusoé desta semana. A revista, como se sabe, é ainda mais prolixamente antagonista do que o site e anda tão extraviada quanto o próprio Robinson Crusoé, personagem simbolicamente escolhido para lhe dar o nome.

         A manchete dizia: “O impeachment entra na agenda”. Você entendeu, leitor? É preciso que o impeachment entre na agenda. Então, passam a escrever sobre o que não estava na agenda, como forma de fazer com que se torne assunto e se passe a falar de algo que sequer estava em cogitação, exceto em círculos de intriga, tramoia e conjura que conspiram nesse sentido. Um processo circular, muito bem pensado.

Nestes dias, jornais e TVs dedicadas ao jornalismo militante estão fazendo exatamente isso. Mas se você for olhar atentamente, verá que é tudo merengue, sem consistência. Se parar de bater, dessora e acabou. A mídia esconde tudo que é feito e bem feito, passa todo tempo falando mal do presidente e julga armazenar substância para derrubá-lo do poder. Não tem povo, não tem voto, não tem motivo. E querer não é poder.

O jurispetista versejador sergipano Ayres Britto, ex-ministro do STF, foi escolhido a dedo para ser entrevistado pela Folha de São Paulo na semana passada. Incumbido de trazer o impeachment “para a agenda”, ciscou ninharias, listou banalidades, abandonou verbos e substantivos, apelou para adjetivos, reproduziu fake análises e, na ausência de fatos, sugeriu um impeachment pelo “conjunto da obra” como ele a conseguia ver desde sua reduzida estatura.  

Conjunto da obra? Mas é exatamente pelo conjunto da obra que esse impeachment não conta com apoio popular e vejo o presidente com boas possibilidades de ser reeleito. Aliás, é o que mostram as pesquisas. É pelo conjunto da obra que a sociedade não confia no STF. É pelo conjunto da obra que ela não confia no Congresso Nacional. É pelo conjunto da obra que ela rejeitou nas urnas de 2018 os partidos que até então haviam arrastado o Brasil para o caos econômico, social e moral. É pelo conjunto da obra de desinformação que ela não confia na mídia militante. Não será por maus modos e frases mal construídas que haverão de destituir um presidente eleito com 57 milhões de votos.

Na introdução que escreveu para a coletânea de textos intitulada “Uma campanha alegre”, em que ele e Ramalho Ortigão corroeram, com a acidez do mais fino humor, as estruturas da política portuguesa, Eça de Queiroz afirmou: “O riso também é uma opinião”.

Onde a seriedade some, o ridículo assoma e o riso é um bom companheiro.

* Publicado originalmente em Conservadores e Liberais, o site de puggina.org


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