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O PREÇO DA CEGUEIRA VOLUNTÁRIA - 30.04.26


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Governos costumam morrer no calendário, mas este está morrendo na realidade, porque a vida de quem produz já não aceita o palanque.
O atual ciclo lulopetista, longe de padecer de um desgaste comum, revela uma falência completa de premissas.
A cada novo episódio, como o de ontem, o padrão se repete: eleva-se o tom, amplia-se o ruído, como se fosse possível abafar, no grito, o som das engrenagens travando.
O erro aqui não é pontual, é integral: falta técnica, sobra arrogância.
Estamos diante de um modelo assumidamente perdulário que confunde o caixa do Estado com herança e populismo com solução, fazendo da incompetência não um desvio ocasional, mas a própria estratégia de “desgoverno”.
Persiste em Brasília a fantasia de que o Estado é o motor do mundo, quando, na prática, ele opera como um freio de mão puxado por quem jamais precisou assinar uma folha de pagamento.
Cada vez que um burocrata decide onde o capital deve estar, a inovação é sufocada ainda no berço.
O resultado é um país que passa a tropeçar em regulações desenhadas para proteger o topo e asfixiar a base.
Sob o pretexto de cuidar, o Estado vigia, e, em nome do social, tributa até a esperança, até que o lucro vire pecado e investir se torne um ato de resistência.
Não se trata apenas de ideologia, mas de uma lógica elementar, porque não se faz um avião voar aumentando o peso da carga e cortando o combustível.
Prosperidade jamais foi concessão governamental, mas consequência direta de um ambiente em que o governo não atrapalha.
Razão pela qual a liberdade econômica deixa de ser privilégio de poucos para se revelar como o oxigênio indispensável de quem acorda cedo para manter o país em pé enquanto o próprio Estado insiste em dificultar.
O próximo ciclo político não pode se resumir a uma troca de cadeiras, pois ou se encara o diagnóstico sem anestesia, com a seriedade que a realidade impõe, ou continuaremos presos à velha caricatura de um país do futuro que nunca chega.
Enquanto isso, o país se deteriora no presente, o que exige menos tutela, mais responsabilidade, menos imposto asfixiante e mais espaço para quem cria valor sem pedir licença.
Persistir no erro, com o abismo já visível no horizonte, deixou de ser ignorância para se transformar em projeto.
O preço, como sempre, não cai sobre a caneta que assina o decreto, mas sobre o lombo de quem carrega o piano.


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A NAÇÃO ESFACELADA - 29.04.26


Por Dagoberto Lima Godoy


A nota de entidades do sistema financeiro em apoio à indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal é mais do que um episódio político. É um símbolo. Não se discute aqui a biografia do indicado, nem se pretende negar a qualquer setor da sociedade o direito de manifestar opinião sobre tema institucional relevante. O ponto é outro: quando corporações econômicas se mobilizam ostensivamente para influir na composição da Corte Suprema, fica exposta uma doença mais profunda da vida nacional — a substituição do interesse público por cálculos de conveniência setorial.
O Supremo não é uma agência reguladora do mercado, nem um departamento jurídico do governo, nem um balcão de garantias para grupos organizados. É, ou deveria ser, a última trincheira da Constituição. Por isso, a escolha de seus ministros deveria ser cercada de sobriedade, escrutínio moral, independência e distância prudente de interesses corporativos. Quando setores poderosos se apressam em declarar apoio a este ou àquele nome, a pergunta inevitável é: apoiam por convicção republicana ou por expectativa de segurança, acesso e previsibilidade favorável?
O episódio é emblemático porque revela algo que vai além do sistema financeiro. O Brasil vive uma progressiva desagregação do espírito coletivo. Cada grupo parece defender apenas o seu pedaço: corporações, partidos, bancadas, sindicatos, empresas, tribunais, carreiras de Estado, movimentos organizados. A nação, como ideia superior capaz de limitar apetites particulares, vai desaparecendo do horizonte. O interesse nacional se dissolve na soma de interesses privados em conflito ou em acomodação.
O Congresso Nacional, salvo exceções honrosas, reflete essa decomposição. A política deixou de ser predominantemente debate sobre o destino do país para tornar-se negociação permanente de vantagens, cargos, verbas, blindagens e sobrevivências eleitorais. A representação popular, que deveria elevar os interesses dispersos da sociedade a uma visão de conjunto, frequentemente os rebaixa a mercado de trocas. O parlamentar não se sente mandatário da República, mas operador de sua base, de seu grupo, de seu fundo eleitoral, de seu espaço de poder.
No Judiciário, a situação é igualmente preocupante. A simples multiplicação de controvérsias envolvendo ministros, familiares, relações econômicas, decisões monocráticas de enorme impacto e proximidades impróprias com agentes políticos e empresariais corrói a confiança pública. Uma Corte Suprema precisa não apenas ser honesta; precisa parecer institucionalmente distante, contida e impessoal. Quando passa a ocupar o centro da política, a falar demais, decidir demais e justificar-se de menos, perde a majestade moral que sustenta sua autoridade.
O que se vê, portanto, não é apenas crise de governo. É crise de caráter público. O Brasil sofre de um esfacelamento moral que não se resolve com um salvador, uma eleição, uma decisão judicial ou uma reforma isolada. O problema está no enfraquecimento da ideia de limite: limite ao poder econômico, ao voluntarismo judicial, ao fisiologismo parlamentar, ao uso partidário das instituições e também ao cinismo social de quem condena a corrupção alheia, mas aceita pequenos privilégios quando lhe convêm.
Como sair disso?
A decadência começa quando cada um pergunta apenas: “o que ganho com isso?”. A reconstrução começará quando voltarmos a perguntar: “que país estamos deixando depois de nós?”. Sem espírito público, não há Constituição que resista, Supremo que se respeite, Congresso que represente ou economia que sirva à nação. Há apenas interesses organizados disputando os restos de uma nação que esqueceu de ser comunidade.


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A VERDADEIRA POLARIZAÇÃO É ESSA - 27.04.26


Por Roberto Rachewsky

 

De um lado, temos os que falam o "dialeto de casta".  São os poderosos, hoje conhecidos vulgarmente por os intocáveis. Gilmar Mendes é o exemplo pronto e acabado. O típico sofista contemporâneo. Sua fala é sofisticada, rebuscada, entupida de jargões e mesóclises que servem mais como uma barreira de entrada do que como um canal de comunicação. É uma retórica imponente, mas muitas vezes vazia de substância moral, onde a técnica jurídica parece um malabarismo para justificar o injustificável. Talvez por isso a gagueira característica e a salivação excessiva que sublinham olhares desafiadores e gesticulação teatral.

De outro, temos gente como a gente, como o comerciante que, indignado, se tornou governador, Romeu Zema. O sotaque é carregado, o estilo é simplório, mas a fala é ancorada na realidade factual. Ele não precisa de economês para explicar que o Estado está quebrado nem de latim para expor que o indivíduo deve ser livre para produzir. Ele se comunica de igual para igual com o povo, trocando a pompa pela verdade autoevidente de quem veio do setor produtivo e não das tribunas de Brasília.

Enquanto o sofista usa a linguagem para se distanciar da moralidade comum, o gestor do pão de queijo usa a simplicidade para resgatar a lógica e a eficiência que reside na liberdade e na justiça.

Qual desses perfis você acredita que realmente move o Brasil para frente? A casta dos parasitas engomadinhos ou a dos que produzem com sangue, suor e lágrimas os valores que necessitamos? Sim. Precisamos de juizes e procuradores, de políticos e burocratas. Mas eles devem obedecer limites porque seus poderes são outorgados pelo povo que espera deles exatamente aquilo que foi dito, moralidade, liberdade e justiça. Não usurpação do seu poder para oprimir quem os paga nem se deixarem corromper atrás do enriquecimento ilícito para viverem como nababos.

Entre os candidatos à presidência, Romeu Zema é o único que sempre viveu do próprio trabalho, os outros viveram dos impostos subtraídos à força dos brasileiros indefesos, vulneráveis à coerção do governo que extorque e confisca o fruto do trabalho alheio para sustentar a casta dos sofistas que apreciam humiliar quem lhes paga o salário contra a própria vontade.


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ENGENHARIA DE REDUNDÂNCIA: A DUPLA CAMADA ZEMA-FLÁVIO


 Segundo a oportuna ótica do economista e cientista político Diego Muguet:

 

​O que Romeu Zema está fazendo não é um surto retórico; é uma arquitetura de sobrevivência política desenhada para 2026. Ao partir para o confronto direto com o STF, ele cria um mecanismo de segurança que blinda a si mesmo e a Flávio Bolsonaro simultaneamente.

 

​Camada 1: O Escudo de Atração

​Enquanto Flávio lidera as pesquisas, ele permanece no centro do alvo jurídico. Zema, ao elevar o tom a um nível sem precedentes, atua como um diversor de radar. Ele força os ministros e o aparato institucional a reagirem contra ele, dividindo a munição e a atenção que hoje estão concentradas no senador. É a técnica de encarecer o custo de qualquer ação: para atingir a liderança das pesquisas, será preciso passar por um governador que já "queimou as pontes" e não teme o desgaste.

 

​Camada 2: O Backup de Segurança

​A lógica é de redundância operativa. Se a engrenagem jurídica tentar invalidar a candidatura de Flávio Bolsonaro, Zema já terá se consolidado como o herdeiro imediato, testado no conflito e com a lealdade da base forjada no enfrentamento.

 

​Eles criaram um impasse lógico para os tribunais: ao tentar derrubar um, apenas fortalecem a narrativa e a prontidão do outro. Inviabilizar os dois nomes mais fortes do campo conservador ao mesmo tempo elevaria a tensão institucional a um ponto de ruptura que a burocracia de Brasília prefere evitar.

 

​Zema deixou de ser apenas o gestor eficiente de Minas para se tornar a Apólice de Seguro da direita. Ele está limpando o trilho para o Flávio, garantindo que, se o plano A for travado, o plano B já estará na velocidade máxima.

 

​O que estamos vendo é o fim da ingenuidade política: a construção de um bloco onde a queda de um só acelera a ascensão do outro.


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LIBERDADE NÃO É UMA GAVETA - 22.04.26


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Classificar pessoas virou um hábito automático, quase um reflexo de quem prefere rotular a compreender.
Direita, esquerda, são carimbos rápidos que tentam simplificar o que é, por natureza, mais complexo. Ontem, entre amigos e um galeto memorável, enquadraram-me como direita. Não sou, sou um liberal.
Eu não sou de direita. Tampouco de esquerda. Sou liberal e, no Brasil, isso ainda exige explicação.
Ser liberal é partir de um princípio incômodo, mas inegociável, em que o indivíduo vem antes do sistema.
Não se trata de uma tese elegante, mas de um limite concreto. Quando o Estado ultrapassa esse limite, ele deixa de organizar e passa a substituir; e, ao substituir, inevitavelmente sufoca aquilo que deveria florescer de forma espontânea.
Prosperidade começa onde quase ninguém quer começar; na disciplina fiscal. Não é apenas uma questão de contabilidade, mas de caráter institucional. Não se gasta o que não se tem e, mais do que isso, importa profundamente como se gasta.
O gasto público de má qualidade não é neutro; ele distorce incentivos, protege ineficiências e consome o futuro antes mesmo que ele exista. A conta raramente fica com quem decide. Ela recai, como de costume, sobre quem tem menos margem de escolha.
É evidente que os mais pobres precisam de apoio. Mas apoio não pode se confundir com dependência. Política social séria precisa ter direção e, sobretudo, saída. O que deveria funcionar como ponte, no Brasil, frequentemente se transforma em permanência. Nesse arranjo confortável para quem governa, o indivíduo deixa de ser agente da própria vida para se tornar um número previsível, facilmente administrado.
Outro desvio recorrente é tratar a desigualdade como se fosse, em si, uma patologia. Não é. Em uma sociedade livre, indivíduos diferentes, com talentos, esforços e escolhas distintos, produzirão resultados distintos. O problema não está em alguém avançar, mas em alguém permanecer sem a possibilidade real de sair do lugar.
É aqui que o nosso tempo se revela e, muitas vezes, falha. Em Cândido, o Dr. Pangloss simboliza o vício de ajustar a realidade à teoria, mesmo quando os fatos insistem em contrariá-la. Não se observa o mundo como ele é; tenta-se moldá-lo ao que se gostaria que fosse. Princípios são reescritos, não à luz da experiência, mas das vontades. E aquilo que foi testado ao longo do tempo passa a ser tratado como obstáculo, enquanto construções frágeis são elevadas à condição de virtude.
Nesse ponto, não há constrangimento em afirmar que há valor no conservadorismo que preserva o que funciona. Não o que resiste à mudança por inércia, mas o que sobreviveu a ela. A experiência acumulada não é inimiga do progresso; é o seu filtro mais confiável.
O Brasil, entretanto, permanece preso a um acordo silencioso. Direita e esquerda disputam o controle do mesmo Estado inflado. Divergem no discurso, mas convergem na centralidade do poder. Ambos, no fundo, demonstram a mesma desconfiança clara no indivíduo.
Eu não.
Prefiro um país onde menos decisões sejam concentradas e mais vidas sejam conduzidas por quem as vive.
Liberdade não é rótulo, é responsabilidade. E responsabilidade, definitivamente, não cabe em gavetas.
Penso que o mais difícil não é escolher um lado, mas ter a coragem de não caber em nenhum.


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A NOTA, A CASCA E O CHEIRO QUE INSISTE - 15.04.26


Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Milhões de brasileiros já não conseguem ignorar o teatro dantesco vermelho, verde-amarelo.
Uma encenação conduzida com a disciplina de um ritual que já não precisa convencer, apenas sobreviver. Não vivemos uma República no sentido clássico, mas uma coreografia institucional onde o gesto substitui o fato.
Quando a realidade escapa ao controle, e ela sempre escapa, não se abre investigação nem se aprofunda o debate. Acende-se o holofote sobre a nota. Escárnio.
Ela surge pontual, previsível, anestésica. Em vez de esclarecimento, ergue-se a voz em “defesa da democracia”, essa entidade elástica que, no Brasil, só se manifesta quando precisa ser protegida, nunca quando precisa ser explicada. 
O conteúdo das revelações torna-se acessório; o que importa é a reação coordenada. Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, peças de um mesmo automatismo institucional que transforma o incômodo em ofensa, a pergunta em ataque e a dúvida em risco sistêmico.
O deslocamento é engenhoso. Não se responde ao fato; redefine-se o ambiente. De repente, não discutimos mais relações promíscuas ou proximidades, mas a “salvaguarda das instituições”. Quem ousa retornar ao ponto inicial ocupa, automaticamente, o papel de agressor. É o triunfo da moldura sobre o quadro.
Na ausência de tensão real, o desgoverno lulo-petista prospera. Não por vigor próprio, mas por habitar uma institucionalidade que encena independência enquanto opera com a fluidez de balcões. Onde se esperaria fricção constitucional, encontra-se a conveniência administrativa. A democracia, nesse arranjo, deixa de ser luz e se transforma em escudo, um espelho retórico que devolve qualquer questionamento como um feixe hostil.
A imagem do ovo retorna, agora sem metáfora gentil. A casca não apenas protege; ela isola. É polida e defendida com fervor, enquanto o conteúdo permanece oculto, claro que não por ausência, mas pelo risco da confirmação.
O sistema sabe disso. Por isso a urgência em encerrar o assunto antes que ele deixe de ser narrativa e volte a ser fato. É, esse território incômodo onde versões precisam se sustentar. Não se trata de defesa institucional; trata-se de pura administração do dano.
A nota. Pois ela cumpre seu verdadeiro papel, o de preservar a casca a qualquer custo.
O problema é que, cedo ou tarde, o cheiro do que apodrece atravessa qualquer polimento, e aí já não há nota que contenha o ar.


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