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REGIME TIRANO, NAÇÃO PELO CANO - 24.06.26


Por Percival Puggina

 

            Há alguns anos fui convidado, por um grupo católico, a falar sobre liberdade econômica e prosperidade social. A abordagem que fiz aproveitava o ensinamento proporcionado pelas trágicas experiências da Cortina de Ferro e do Muro de Berlim. Aquelas linhas divisórias, traçadas nas reuniões de Yalta e Potsdam após a Segunda Guerra Mundial, evidenciaram ao mundo as diferenças no curto, médio e longo prazo entre economias estatizadas e economias livres. O caso alemão era o mais didático por envolver o mesmo povo e a mesma cultura. De um lado, partido único, opressão e economia centralizada; de outro, Estado de Direito, democracia, liberdades políticas, civis e econômicas. Na primeira fila do auditório, um senhor, adepto da Teologia da Libertação, contrariado, se agitava na cadeira.

Enquanto eu falava, veio-me a ideia de ilustrar a mensagem com um exemplo que era presença cotidiana em todos os lares. Falei sobre as panelas alemãs. Expliquei que, finda a guerra, era preciso fabricar panelas para uma nação bombardeada. No lado ocidental, algum empreendedor instalou sua fábrica e passou a vender o produto. Perguntei ao auditório: “Quanto terá ele cobrado por unidade?”.

Arrancando risos, adiantou-se o tal sujeito na resposta: “Como explorador do trabalho alheio, deve ter cobrado o máximo que o povo estava disposto a pagar”. “Exatamente”, respondi. E acrescentei: “Ganhou tanto dinheiro que, logo, surgiram outros fabricantes para se beneficiar de uma fatia daquele mercado. Novas fábricas, novos empregos, mais gente vendendo e preços em queda por força da concorrência.”

Prossegui a exposição sobre o que de fato aconteceu no lado ocidental, falando na geração das panelas de aço inoxidável, fáceis de limpar, nas panelas de aço com fundo triplo, nas panelas de pressão, nas cerâmicas, nas válvulas reguláveis, nas variedades de design, nos materiais de cabos e alças, nas tampas de cristal, nas cores, nas panelas que apitam. Cada vez mais fábricas, mais operários, mais panelas criando a necessidade de buscar mercados e exportar volumosos excedentes de produção.

No lado oriental, submetido ao comunismo, as fábricas se transformaram em Empresas de Propriedade do Povo (VEB em alemão) e produziam espessas panelas de alumínio, desatualizadas, feias, mas feitas para durar gerações. Demanda atendida e decrescente. Em toda parte, pobreza e miséria se instalando pela ausência de fatores e motivações essenciais ao desenvolvimento econômico. O muro se tornou inevitável para conter o êxodo.

Ao final da palestra, dirigindo-me ao incomodado interlocutor da primeira fila, disse: “De cima do Muro de Berlim, durante três décadas, as donas de casa da Alemanha Oriental, olhavam as panelas usadas por suas irmãs e primas, tão próximas quanto inalcançáveis, e pensavam em quanto não dariam pelo privilégio de possuir ao menos uma em suas cozinhas. Certamente pagariam um preço ainda maior do que o ‘explorador do trabalho alheio’ havia cobrado pelas primeiras panelas que fabricou. Para entender o monumental efeito desses contrastes entre os dois modelos, ponderem que eu falei apenas em ... panelas.” Estado tirano, nação pelo cano.


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O PREÇO DA CONVENIÊNCIA 1 - 22.06.26


Por Silvio Sibemberg


O artigo de Hélio Schwartsman publicado na Folha esta semana discorre sobre o porquê de a corrupção se manter praticamente sem maiores problemas no Brasil. Segundo ele, não há interesse em combatê-la — ela seria parte da organização social de países subdesenvolvidos. Muitos beneficiários estão no mesmo barco.
O texto se atém à corrupção, mas poderia servir igualmente à análise da sonegação no Brasil. A grande maioria das pequenas empresas sonega para continuar no mercado. Mesmo com diminuição da carga tributária, os MEIs precisam, de alguma forma, sonegar para crescer. O raciocínio fiscal é deixar que cresçam para se tornarem contribuintes mais robustos. O tamanho da malha é para deixar passar os miúdos e reter os graúdos.
Na verdade, muitas das grandes empresas que hoje sustentam a máquina pública recorreram, em maior ou menor medida, à informalidade em algum momento de sua trajetória. Faz parte da cultura de países em desenvolvimento tolerar essa travessia.
Nas rodas empresariais formadas por esses ex-sonegadores, a crítica à falta de combate à corrupção é intensa. Poucos sabem que aqueles probos senhores muito sonegaram para chegar aonde chegaram. A tese de que os meios justificam os fins corre solta nas "Farias Limas" do país. Enquanto a corrupção prefere as sombras palacianas.
As narrativas jornalísticas preferem a corrupção — sempre acontece com os outros. Já a sonegação é mais complicada: costuma morar perto de casa.
Justificativas não faltam: carga tributária excessiva, necessidade de caixa para crescer, gerar empregos. E não estão de todo errados — em meio a uma atribulada gincana fiscal e trabalhista, esse parece ser o único caminho viável.
O Estado se diz prejudicado e justifica suas mazelas pela falta de arrecadação. Saúde e educação deficientes são sempre atribuídas aos sonegadores, raramente à corrupção.
Sob o ponto de vista ético, desviar recursos públicos não é menos grave do que deixar de recolhê-los. Em ambos os casos, a sociedade é privada de recursos que deveriam retornar em serviços e investimentos.
A conta acaba sendo paga pelos mesmos: a turma menos favorecida. O andar de cima sofre menos as consequências desse festival de hipocrisia do qual é personagem atuante, quer em uma ponta, quer em outra da nau dos insensatos.
A consciência de que precisamos evoluir como sociedade constrói-se aos poucos. Décadas de investimentos em saúde, educação e fortalecimento das instituições podem minorar as deficiências morais e econômicas da nação.
Enquanto isso, vamos tentando reduzir o cinismo entre aqueles que realmente podem ajudar na formação dessa nova ordem no Brasil.


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O LEVIATÃ AMEAÇA A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - 11.06.26


Por Dagoberto Lima Godoy


O Brasil parece disposto a regular a inteligência artificial antes mesmo de compreender bem do que se trata. Em nome da proteção de direitos, da segurança e da transparência, uma nova camada de controle sobre o ambiente digital avança no Congresso e no Executivo. A intenção declarada é nobre, como quase sempre é. Mas a história ensina que o poder raramente se expande confessando seus verdadeiros apetites. O Leviatã moderno não se apresenta como tirano, mas como tutor.
A inteligência artificial é a inovação mais decisiva de nosso tempo — talvez de todos os tempos. Ela afetará a produtividade, a ciência, a indústria, a educação, a saúde, a defesa, a administração pública e será decisiva para a competitividade internacional. O país que souber usá-la ganhará velocidade; o que a constranger — por medo, burocracia ou suspeita — ficará para trás.
É claro que há riscos: fraude, manipulação, violação de intimidade, discriminação, abuso de dados e vigilância indevida. Mas a resposta não pode ser transformar a inovação em território vigiado, submetido a conceitos vagos como “alto risco”, “impacto sistêmico”, “uso responsável” ou “falha sistêmica”, entregues à interpretação de burocracias reguladoras.
A norma vaga é o instrumento preferido do Estado sedento de poder. Ela não proíbe claramente; intimida. Não censura diretamente; induz à autocensura. Não impede a inovação por decreto; torna-a cara, arriscada e juridicamente insegura.
O resultado é previsível. Plataformas e empresas passam a remover conteúdos, bloquear experiências e evitar riscos antes mesmo de qualquer ordem estatal. Ao mesmo tempo, os grandes grupos saem fortalecidos, pois têm departamentos jurídicos, equipes de compliance e acesso permanente ao Estado. Já startups, pesquisadores, pequenas empresas e empreendedores locais são empurrados para fora do jogo.
Assim, uma regulação apresentada como defesa da sociedade pode acabar concentrando mercado, sufocando a inovação nacional e aumentando a dependência de plataformas estrangeiras. O Estado diz proteger o cidadão, mas termina protegendo os gigantes e constrangendo os pequenos.
Não se trata de defender uma terra sem leis. O Brasil já as tem até em excesso, embora muitas vezes desconsideradas até por quem existe para por elas zelar. O que se contesta é a criação sucessiva de novas estruturas administrativas, com sanções, relatórios, deveres genéricos e crescente margem de intervenção política.
A inteligência artificial precisa de responsabilidade, mas precisa, sobretudo, de liberdade. Sem liberdade, não há ciência viva, mercado dinâmico nem criatividade transformadora. O perigo não está apenas nos abusos da IA, mas na tentação de usar esses abusos como pretexto para domesticar a inteligência humana.


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O APAGAMENTO DOS LIMITES - 10.06.26


Por Alex Pipkin -  PhD em Administração
 
A crença mais perigosa do nosso tempo é a de que o problema está no sistema. Não está. O problema está no homem.
Mudam os regimes, mudam as bandeiras, mudam os discursos, trocam-se os salvadores da pátria. O ser humano, porém, permanece surpreendentemente parecido consigo mesmo.
A inveja atravessou séculos. A cobiça atravessou impérios, e a sede de poder sobreviveu a todas as revoluções que prometeram eliminá-la.
Foi justamente por reconhecer essa realidade que a civilização construiu limites. Primeiro surgiram os limites morais, expressos na honra, no dever, na responsabilidade e no caráter. Depois vieram os limites institucionais, materializados nas leis, nas constituições e na separação dos poderes.
A lógica era simples. Se os homens são imperfeitos, precisam de limites. E se aqueles que governam também são homens, o poder precisa de limites ainda maiores.
Durante séculos, essa combinação imperfeita permitiu algo extraordinário. Logrou a liberdade sem anarquia e autoridade sem tirania.
O problema é que passamos a enfraquecer os dois pilares simultaneamente.
A moralidade foi transformada em relíquia. A vergonha desapareceu do vocabulário público. O dever tornou-se antiquado. O autocontrole passou a ser visto com desconfiança.
Ao mesmo tempo, os limites institucionais passaram a ser tratados como obstáculos por aqueles que se julgam portadores de causas superiores, virtudes superiores ou missões superiores.
Nenhuma sociedade permanece saudável por muito tempo quando a consciência perde força e o poder perde contenção.
A velha sabedoria popular dizia que a ocasião faz o ladrão. A experiência humana sugere algo diferente. A ocasião não cria o ladrão, apenas revela quem ele já era.
Civilização nunca significou transformar homens imperfeitos em seres perfeitos. Significou criar barreiras capazes de conter seus impulsos mais destrutivos.
Quando os limites morais enfraquecem e os limites institucionais deixam de cumprir sua função, ressurge aquilo que a civilização sempre tentou domesticar; a luta permanente por vantagens, privilégios e poder, frequentemente disfarçada de virtude.
É nesse ponto que as sociedades iniciam sua marcha regressiva. A prosperidade pode sobreviver por algum tempo, a tecnologia pode continuar avançando e as aparências podem até sugerir normalidade. Mas, quando desaparecem os limites que contêm os impulsos humanos e restringem os abusos do poder, o processo de decadência já começou.
As sociedades raramente morrem por falta de riqueza. Morrem quando desaparecem os limites que contêm os homens e o poder.
A grande conquista da civilização nunca foi eliminar os nossos defeitos, mas impedir que eles assumissem o comando.


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A QUÍMICA DO INGÊNUO - 03.06.2026


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

Amadores negociam posições. Profissionais negociam interesses.

Na geopolítica das potências, a retórica ocupa os holofotes; os interesses escrevem o roteiro.

Essa é uma das regras mais antigas do poder. Ainda assim, continua sendo ignorada por quem confunde cordialidade com convergência de interesses.

Quando Donald Trump afirmou existir uma “química” entre ele e Lula, muita gente interpretou a frase como um sinal de proximidade. Talvez tenha sido apenas mais uma demonstração de algo que negociadores experientes fazem todos os dias; utilizar a simpatia como instrumento.

A diferença entre o amador e o profissional não está na capacidade de dialogar. Está na maturidade de compreender que simpatia e interesse raramente sentam na mesma cadeira.

Na política internacional não existem amizades permanentes; existem interesses permanentes.

O problema começa quando governos passam a acreditar que relações pessoais podem substituir estratégia ou que afinidades ideológicas podem substituir interesses nacionais.

A realidade costuma ser bem menos romântica.

Nos últimos meses, sinais vindos do exterior sugerem uma mudança de percepção em relação ao Brasil. Atritos diplomáticos, divergências institucionais, tensões comerciais e preocupações com segurança pública deixaram de ser assuntos restritos aos especialistas e passaram a integrar o cálculo estratégico de outros países.

Ignorar esses sinais não os torna menos reais.

Há uma ironia quase cruel nesse cenário.

Enquanto o país enfrenta desafios ligados à produtividade, à competitividade internacional e à atração de investimentos, parte do debate público parece concentrar-se na distribuição de benefícios antes da geração de riqueza.

É a imagem de um maratonista tentando correr os últimos quilômetros carregando um piano nas costas.

Mas o espantoso não é a conta ter chegado. É a surpresa de quem a recebe.

A surpresa de quem acreditou que populismo, diplomacia ideológica, desprezo pela produtividade e uma política externa guiada por preferências políticas e ideológicas poderiam produzir prosperidade duradoura.

Trump nunca esteve à mesa para defender os interesses do Brasil. Estava lá para defender os interesses dos Estados Unidos.

E é exatamente para isso que presidentes são eleitos.

Enquanto alguns apostavam na química, Washington calculava o seu BATNA (Best Alternative to a Negotiated Agreement): a melhor alternativa caso não houvesse acordo.

Em outras palavras, enquanto um lado apostava na afinidade, o outro avaliava alternativas.

Grandes nações não têm amigos. Têm interesses. E os interesses, ao contrário da química das aparências, não desaparecem quando a conta chega.

Talvez ela já esteja chegando.

A ameaça de tarifas sobre produtos brasileiros atinge empregos, investimentos e renda justamente quando o país já sufoca quem produz com impostos, burocracia e baixa competitividade.

A matemática é simples.

Nenhuma nação enriquece punindo quem gera riqueza.

Populismo rende discursos. A realidade envia a conta.


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MEXA-SE - 26.05.26


Por Percival Puggina
 
 Você sabia que nos totalitarismos o Estado aplica força punitiva menor contra alguém que fez algo do que contra muitos, apenas por serem o que são? Independentemente de qualquer conduta individual, Robespierre perseguia membros da nobreza, clérigos, monarquistas e girondinos. Lênin e Stalin, cada um a seu turno, faziam o mesmo com intelectuais, empresários e produtores rurais. Hitler eliminava judeus por serem judeus. Mao Tse Tung eliminava professores, cientistas e, claro, líderes religiosos e minorias. Fidel e Che Guevara perseguiam gays, intelectuais e padres.
 
Quebrados os ovos mais pavorosos da história para fazer trágicos omeletes e com bem nutrido poder, eles derrubavam todos os marcadores, todas as balizas e invadiam a vida privada. Sob o peso de seu braço, nunca houve direito contra a vontade do Estado. Nenhuma dissidência ou divergência era tolerada. Para assegurar-se disso, o aparato estatal protagonizava coerção, disseminando terror na sociedade.
 
Se você, assim como eu, sofre física, moral e espiritualmente com o padecimento dos injustiçados, com a dor dos perseguidos, e se indigna ante o evidente desejo de perenizar os meios de dominação, chegou a hora da autossuperação! Haverá eleição nacional dentro de quatro meses. Os que jogam com as cartas dessa eleição sabem que a mais importante é a dos novos 54 senadores que se somarão aos 27 remanescentes do pleito de 2022. Não haverá democracia, nem liberdade, nem bom direito, nem boa política, enquanto o poder sem voto continuar sua sanha persecutória contra “bolsonaristas” e “direitistas”, a usar o Direito como estratégia e a redigir a Lei com as próprias mãos.
        
Na primeira travessia do Delta do Jacuí, há uma parte levadiça para passagem de embarcações. Quando isso acontece, formam-se extensas filas nas pistas de entrada e saída da capital. Certa manhã, fui detido durante operação dessa ponte. Ao retomar a viagem, com os veículos se deslocando lentamente até encontrarem espaço para acelerar, percebi um hiato no fluxo da pista em sentido contrário e avistei, mais adiante, grande concentração de veículos. Passei observando o que detivera o trânsito e o quadro era bem incomum. Havia um motorhome parado no meio das duas pistas; por ambos os lados, alguém tentara passar, mas não conseguira espaço suficiente e deteve quem vinha atrás de si e assim, sucessivamente, todos foram parando. O motorista do motorhome, reclinado no banco, parecia dormir. Fui em frente, rindo do que vira, mas logo deixei de rir ao dar-me conta da lição que ali se proporcionara a todos: uma pessoa parada pode deter uma multidão. Logo, uma pessoa que se mova pode mobilizar uma multidão.
 
Desculpe-me, caro leitor, mas a hora o exige. O Brasil não aguenta mais quatro anos disso que nos está imposto. Escolha dois bons candidatos a senador, comprometidos não só com seu Estado, mas com a liberdade dos brasileiros e com o fim da tirania das canetas que saíram de todo controle. Trabalhe para eleger esses dois senadores (são dois votos e a liberdade precisa de ambos). Já, agora, mexa-se!


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