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TRÊS ATOS MACABROS DA -IMPRENSA-. 29.12.25


Por Luís Ernesto Lacombe


A “imprensa” que transformou Alexandre de Moraes na “muralha em defesa da democracia”, num super-herói, de repente resolveu, ela própria, se transformar, mas não se endireitar... Nos últimos sete anos, esses “jornalistas” endossaram todas as ilegalidades, todos os arbítrios e abusos praticados pelo ministro. Fingiram que a democracia podia ser salva por medidas tirânicas. Permitiram criminosamente que ministros do STF, especialmente Moraes, ignorassem, interpretassem de maneira muito própria ou mesmo inventassem leis. Estava tudo bem. Jair Bolsonaro era o “ditador”, o “fascista”, o “nazista”, o “genocida” que precisava ser parado. Contra ele valia tudo.

 

A perseguição a Bolsonaro, seus aliados e apoiadores foi implacável. E a “imprensa” abandonou as perguntas, o debate, abandonou os fatos, a busca da verdade. Ela e o STF tinham um inimigo em comum e muito entrosamento nas mais estapafúrdias narrativas para tentar destruí-lo. Foram os jornalistas cafajestes que formaram uma estrutura de suporte fundamental para que o Brasil e os brasileiros fossem feitos reféns dos interesses mais repugnantes, mais abjetos. Se o STF rasgou a Constituição, a imprensa aplaudiu. Mais do que isso, achou que devia também destruí-la, picotá-la, em vez de cumprir seu papel, em vez de contar as histórias mais relevantes da melhor maneira, com base no que deve conduzir qualquer pessoa, qualquer profissional: a honestidade.
Tantos e tantos crimes foram aceitos como redentores, nessa instrumentalização de tudo, mas o primeiro ato dos jornalistas canastrões chegou ao fim. Então, eles passaram a defender uma “autocontenção” do Supremo. Nesse segundo ato, os canalhas reconheceram os absurdos que foram praticados pelos ministros contra um grupo político, mas, ainda assim, continuaram aceitando todos eles. Como se fosse possível e perfeitamente compreensível agir criminosamente eventualmente, desde que movido por uma “boa causa”. O pedido foi resumido ao seguinte: “Agora que Bolsonaro foi derrotado, vamos voltar a cumprir as leis”.

 

O escândalo envolvendo o fraudulento Banco Master e o escritório de advocacia da família Moraes marca o terceiro ato macabro da imprensa que desistiu de ser imprensa... A letra fria das leis não foi capaz de nortear os “jornalistas” contra a tirania suprema. E agora muitos deles, de vários veículos, enxergam ilegalidades e imoralidades na atuação de Alexandre de Moraes em defesa do banco de Daniel Vorcaro, que mantinha suspeitíssimo contrato de R$ 129 milhões com o escritório chefiado por sua mulher e seus filhos... Que joguinho a “imprensa” está fazendo agora? O dinheiro que recebe do governo federal está servindo para que se crie uma “cortina de fumaça” para as suspeitas de envolvimento do filho de Lula com as fraudes no INSS? O objetivo é abrir vaga no Supremo para abrigar Rodrigo Pacheco, e não apenas o já indicado Jorge Messias? Derrubar Moraes faz parte do acordo com o governo Trump?

 

Os “jornalistas” que resolveram, enfim, cobrar explicações de Moraes e sempre fecharam os olhos para a perseguição e censura a colegas, a veículos de imprensa reclamam que estão sendo “atacados”... Juram que estão “cumprindo seu papel, que é fiscalizar todo mundo que tem posição de poder, que usa recurso público”. Agora, só agora... De repente, não mais do que de repente... E defendem a adoção de um código de conduta do Supremo, de “elementos basilares em termos de comportamento”... Como assim? A Constituição não é mais respeitada, e a solução é um código de conduta? Não, quem só agora está no encalço de Moraes não está sendo atacado, nem criticado. Essa é mesmo uma imprensa cretina, prostituta e vendida, uma imprensa que não é imprensa.


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CLIMA MEDIEVAL - 22.12.25


Por Alex Pipkin

 

O que estamos vivendo nessa terceira passagem de um presidente comprovadamente condenado por corrupção, preso e depois absolvido por arranjos políticos travestidos de decisões institucionais, é a reinstalação de um clima medieval. 
Não no sentido histórico, mas moral e institucional. Um tempo em que o poder não presta contas, a lei deixa de ser igual para todos e a verdade passa a ser aquilo que a “pequena” corte decide que deve ser.
Os escândalos de corrupção envolvendo familiares, aliados e integrantes de um partido que se diz dos trabalhadores — mas que jamais trabalhou — deixaram de causar espanto. Tornaram-se previsíveis. 
A irresponsabilidade, a maldade e a farra com o dinheiro público são mais do que impressionantes!
No Brasil de hoje, a cada novo imposto anunciado surge também um novo caso de roubo, de lavagem de dinheiro, de maracutaia. A corrupção foi banalizada. O mal deixou de chocar. O mal se transformou em rotina, potencializando uma completa degradação moral.
O progresso não é linear, nem automático. E o Brasil está nitidamente regredindo. Enquanto a população trabalha, empreende e luta para sobreviver, é esmagada por impostos cada vez mais asfixiantes. Recursos são drenados da saúde, da educação, da segurança pública e até dos mais vulneráveis, como revelou o escândalo do INSS. O Estado arrecada como nunca, mas entrega como sempre: mal, tarde e para poucos.
Esse ambiente medieval se manifesta também na corrosão das liberdades fundamentais. A liberdade de expressão é atacada, a imprensa é constrangida, a igualdade perante a lei desaparece e o direito passa a ser instrumento político. A busca da felicidade — que deveria ser o eixo de qualquer sociedade livre — vai sendo corroída por um desgoverno que prefere controlar, intervir e punir a permitir que as pessoas vivam, produzam e prosperem.
Não é coincidência que esse mesmo presidente se alinhe internacionalmente com ditaduras e adote posições moralmente degradadas. Apoia regimes autoritários, relativiza o terrorismo e hostiliza Israel, a única democracia de fato no Oriente Médio. Em julho de 2025, seu governo retirou o Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), um gesto que chocou a comunidade internacional; um retrocesso moral e diplomático. Não há justificativa burocrática capaz de ocultar o essencial; trata-se de um alinhamento ideológico que distorce a história, enfraquece o combate ao antissemitismo e normaliza a barbárie.
Internamente, o método é o mesmo. Divide-se a sociedade em identidades artificiais, fragmenta-se o tecido social, estimula-se o conflito permanente entre grupos. Homens contra mulheres, brancos contra negros, ricos contra pobres, héteros contra não héteros. O cidadão dá lugar à tribo. É a velha tática autoritária: dividir para governar, confundir para dominar.
Quando o autoritarismo avança, as liberdades individuais e econômicas são as primeiras vítimas. O intervencionismo estatal invade a vida privada, sufoca quem cria riqueza e amplia a dependência de um assistencialismo que mantém milhões reféns do próprio Estado que os empobrece. Tira-se de quem produz para sustentar um sistema que não liberta, apenas perpetua a dependência.
Não há como um país prosperar retornando a um passado autoritário, corrupto e bárbaro. 
O país vive hoje um clima medieval — moral, institucional e civilizacional. Caminhamos firmes para menos liberdade, menos prosperidade e menos dignidade. Um presente que se parece cada vez mais com o passado que deveríamos ter superado e cada vez menos com um futuro de liberdade individual, responsabilidade e desenvolvimento econômico e social real.
Não tenho dúvidas. Quando a corrupção se torna previsível, a arbitrariedade se normaliza e a memória histórica é descartada, o problema já não é apenas político. É pragmaticamente civilizacional.


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O COLAPSO DAS CONTAS FEDERAIS  EM 2027 - 18.12.25


Por Darcy Francisco


Como o próprio nome indica, despesas obrigatórias são aquelas cuja obrigação de pagamento não decorre de decisões momentâneas do administrador, mas de condições pré-estabelecidas em leis, decretos, acordos, contratos, entre outras. As discricionárias são as que dependem do alvedrio do administrador.

 

À medida que vão crescendo as despesas obrigatórias, restam menos recursos para as despesas discricionárias. Por exemplo, de janeiro a outubro do corrente, os benefícios previdenciários cresceram em termos reais 4%; pessoal e encargos sociais, 3,8%;   outras despesas obrigatórias, 5,5%,  e os benefícios de prestação continuadas, 9,7%. E a causa maior disso está no crescimento real do salário-mínimo a que está vinculada mais da metade dos itens citados. Outras causas importantes são a vinculação à receita da despesa com educação e saúde e o crescimento vegetativo das variáveis envolvidas.

 

O arcabouço fiscal fixou um limite de crescimento real da despesa em 2,5%. E, como se vê, a maioria dos itens obrigatórios cresceram muito acima disso. 

As despesas discricionárias corresponderam a 19,7% em 2017 e 20,6% do total em 2018; caíram para 8,3%, em 2024 e 7,9% em 2025 (até outubro). As despesas obrigatórias representam 91% do total da despesa.

 

O Gráfico 1, com dados do Ministério do Planejamento, mostra que em 2026 a parcela do orçamento livre para aplicar em despesas discricionárias é de R$ 83,1 bilhões, decrescendo para -R$ 10,9 bilhões em 2027, quando começa o colapso das contas públicas, que se acentuará em 2028 e 2029, alcançando, respectivamente, -R$ 87,3 e  – R$ 154,2, numa evolução de R$ 79 bilhões anuais, se nada for feito para modificar essa situação. Precisa de grande ajuste fiscal, o que dificilmente será feito.

 

As despesas obrigatórias com saúde, educação, pessoal, previdência, entre outras, absorverão todo o orçamento da União, não restando recursos para manter em funcionamento vários serviços, como energia dos prédios públicos, alimentação, etc. Isso se processará de forma gradual e já começou com a falta de combustíveis para aviões da FAB e outros cortes.

 

No Brasil, há décadas, os gastos primários sobem acima do PIB, estabilizando apenas no período 2017-2019, devido ao teto de gastos. Após essa data, além da retomada, essa tendência foi incrementada, devido à enorme sanha populista e gastadora do atual governo.


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A ILUSÃO PROGRESSISTA DA SOMA ZERO - 16.12.25


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

A política que se autodenomina progressista construiu sua autoridade moral sobre um erro fundamental. Baseia-se, equivocadamente, na crença de que a sociedade funciona como um jogo de soma zero. Para que alguém avance, outro precisa perder. Para que haja justiça, alguém deve ser contido ou punido. 
Essa visão é sedutora porque se apresenta como nobre, compassiva, moralmente elevada. Ela permite sinalizar virtude sem enfrentar a dureza da vida vivida.
Mas essa sedução, como sabemos pelos fatos, cobrou e cobra um preço muito alto. Aplicada à economia, essa lógica já produziu estragos incalculáveis. Não apenas estagnação, pobreza e dependência, mas autoritarismo. Quando a riqueza passa a ser tratada como crime e o sucesso como culpa coletiva, a coerção deixa de ser exceção e se torna a estratégia.
Em nome da suposta justiça social, regimes inteiros se ergueram sobre a ideia de que eliminar criadores de riqueza era condição para libertar explorados. O resultado histórico não foi a revolução pela igualdade, mas repressão. Não, não trouxe dignidade, resultou em morte; não implantou justiça, mas poder concentrado.
Na verdade, o erro começa ainda antes, num nível mais elementar. No canto da sereia, na recusa em aceitar que boas intenções não produzem bens, serviços, alimentos ou empregos. 
A política “progressista” da nossa era acredita que desejar a felicidade de todos é suficiente, como se o mundo material respondesse a slogans e palavras de ordem. Fala-se em direitos, dignidade e inclusão como se isso, por si só, colocasse comida na mesa ou transporte nas ruas. Evidente que não. Ninguém se alimenta de abstrações. Não se come justiça social. Não se anda de virtude. Não se vive de intenções, nem que sejam boas intenções.
Na economia real, o mundo funciona de outra maneira. Mercados livres são jogos de soma positiva porque criam valor novo. Eles permitem que indivíduos cooperem voluntariamente, troquem, inovem, assumam riscos e descubram formas melhores de produzir aquilo que as pessoas realmente precisam. 
Mas os “progressistas do atraso” são apologistas do decrescimento.
Qualquer sujeito racional sabe que o crescimento econômico não é um fetiche estatístico; é a base material de qualquer projeto civilizacional minimamente sério. Sem crescimento, não há empregos. Sem empregos, inexiste renda. Sem renda, não há consumo. Sem produção, não há abundância. E sem abundância, toda política social, mesmo que bem-intencionada, degenera em disputa por escassez.
Claro que desejamos que as pessoas comam! Mas como comer sem dinheiro para comprar comida? Queremos mobilidade. Mas como se locomover sem veículos, infraestrutura e capital acumulado? 
Queremos que o Estado forneça serviços públicos de qualidade. Mas como financiá-los se a economia não produz, se empresas não prosperam, se indivíduos não geram renda? O Estado não cria riqueza do nada. Ele depende integralmente daquilo que a sociedade produz antes. Ignorar isso não é ingenuidade; é irresponsabilidade moral disfarçada de compaixão “progressista”.
Nas últimas décadas, nada ficou mais cristalino do que a rejeição da esquerda identitária a essa lógica. Claro, ela dissolve sua narrativa central. Admitir que o crescimento, sustentado pela liberdade econômica e individual, permite que muitos avancem ao mesmo tempo exigiria abandonar a sua conhecida política do ressentimento. 
Em lugar do crescimento econômico, instalou-se uma moralidade da desconfiança, em que o sucesso se transformou em culpa, o lucro virou violência, e a prosperidade em apropriação indevida. A economia deixou de ser um espaço de criação e passou a ser tratada como um tribunal permanente.
O erro mais profundo está em deslocar a unidade moral do indivíduo para o grupo. Ao fazer isso, a sociedade se transforma num campo de batalha entre identidades coletivas, onde justiça deixa de significar regras neutras e passa a significar reequilíbrio forçado de poder. Status, dignidade, reconhecimento e atenção — bens escassos e posicionais — tornam-se objetos de política pública. Cada ganho simbólico exige uma perda correspondente. Dessa forma, o conflito deixa de ser circunstancial e passa a ser estrutural.
Assim como ninguém pode viver economicamente às custas de todos sem destruir a base material da sociedade, ninguém pode viver simbolicamente às custas de todos sem destruir sua base moral. A resposta adequada não está em vencer esse jogo, mas em recusá-lo. Porque uma política fundada no jogo de soma zero não constrói uma sociedade mais justa, apenas transforma a escassez em método, o ressentimento em qualidade e o fracasso econômico em projeto de poder.
É funesto e o que temos para o momento.
A política “progressista” da pós-democracia não protege a democracia, muito menos os reais criadores de riqueza. Factualmente, ela a instrumentaliza, usa o Estado como braço ideológico do coletivismo e chama de direitos aquilo que, na prática, restringe a liberdade individual e sufoca o crescimento econômico.


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MITO NACIONALISTA E O PREÇO DA ILUSÃO ESTATAL - 03.12.25


Por Alex Pipkin, PhD em Administração

 

O Brasil vive um daqueles momentos em que a realidade deixa de pedir licença e simplesmente arromba a porta. A crise fiscal já não é um alerta técnico, é uma sentença. Mesmo assim, um governo petista incapaz de tomar decisões elementares, aquelas que qualquer família aplica na mesa da cozinha, insiste em brincar de empresário estatal, como se disciplina fiscal fosse capricho de economista liberal. Não é. É a regra número um de qualquer nação que pretenda prosperar. E o país segue agindo como se pudéssemos revogá-la por decreto.
O déficit público, crônico e teimoso, avança para patamares que já ultrapassam 100% do PIB. Imaginem 2026, ano eleitoral. A partir desse ponto, não estamos mais discutindo “preocupação”; estamos negociando tempo com a insolvência. Ainda assim, como num teatro vermelho de quinta categoria, ressurge o velho nacionalismo tropical. A surrada mística do “patrimônio do povo”, uma herança folclórica do “Petróleo é Nosso”, agora reciclada para defender estatais incapazes de cumprir funções básicas.
Essa confusão proposital entre patriotismo e nacionalismo é parte do problema. Patriotismo verdadeiro é responsabilidade fiscal, eficiência, instituições fortes e respeito ao dinheiro suado do contribuinte. Nacionalismo, ao contrário, trata-se de ideologia, uma muleta emocional dos que precisam justificar cabides de emprego, rombos bilionários e serviços decadentes.
O caso dos Correios é o retrato mais cristalino dessa ilusão estatal. Num mundo movido por tecnologia, integração logística, rastreabilidade e competição global, ainda fingir que uma estatal engessada, cara e politizada consegue entregar eficiência é negar o século XXI. Hoje, é tão evidente quanto dizer que o sol nasce no leste. Empresas privadas operam melhor, inovam mais e entregam serviços mais baratos e mais ágeis. E os governos “progressistas” persistem na brincadeira séria de bancar empresários. Escárnio.
Digo isso com a experiência de quem dedicou mais de 20 anos ao estudo da Administração, da Economia e da gestão empresarial. Toda organização verdadeiramente sólida e lucrativa entende que recursos são escassos, que foco é indispensável, que governança não é ornamento, e que a concorrência é a única força capaz de empurrar qualquer negócio para a inovação e para a excelência. Estatais, por definição, operam na contramão desses princípios.
As evidências são vastas: estatais brasileiras sistematicamente apresentam menor rentabilidade, maior risco e desempenho inferior ao de empresas privadas. Não é narrativa. É realidade. E quando o país está soterrado por um rombo estrutural que compromete sua própria estabilidade, seguir repetindo que “privatizar entrega o patrimônio nacional” não é erro, é sabotagem.
Não há saída fiscal, econômica ou institucional que dispense a reabertura imediata do debate das privatizações. Isso não é ideologia; ideologia é esse nacionalismo barato, sustentado por slogans sentimentais para proteger estruturas que sobrevivem de ineficiência e sugam o dinheiro do cidadão brasileiro.
Manter estatais deficitárias em nome de uma fantasia de soberania não é defesa do interesse público; é atraso histórico. 
O verdadeiro patrimônio nacional não são máquinas estatais capturadas por partidos, corporações e interesses privados. O verdadeiro patrimônio é a liberdade — inclusive a liberdade de impedir que o Estado continue fingindo que é empresário.
Claro, um “empresário ornamental”, sem estudo, sem os fundamentos básicos do empreendedorismo e incapaz de administrar a própria conta bancária, que continua bancando gestor do que não sabe, às custas de quem produz.


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O AI-5 NO ESPELHO E A PRISÃO DE BOLSONARO - 01.12.25


Por Percival Puggina    
 

     Não é porque algum professor me contou que conheço a história dos governos militares, mas porque estive bem vivo, jovem e atento no decurso dos acontecimentos.

 

Entrei na faculdade de Arquitetura da UFRGS aos 19 anos, em março de 1964 (remember the date?) e já atuava na política estudantil havia cinco anos. Quando o AI-5 foi editado, no dia 13 de dezembro de 1968, eu tinha terminado os cinco anos do curso, estava esperando os registros profissionais e ia casar.

 

Um quarto de século mais tarde, muita água corrida sob a ponte, conheci Jarbas Passarinho. À época, ele era o mais idoso que falava, em longas e proveitosas conversas, olho no olho, num gabinete do Senado; eu, o mais  jovem que ouvia a história por um de seus autores. Ele tinha sido membro do Conselho de Segurança Nacional onde se concentrava a linha dura que decretou o AI-5. Sabia muito, mas isso é outra história.

 

Com tais motivações e contradições, acabei lendo muito sobre causas e consequências daquele ato institucional. Tal conhecimento dá nitidez à minha percepção de seu espelhamento na situação atual. Ou seja, reproduzindo o que aconteceu em 1968 contra a esquerda que pegou em armas, a atual linha dura do STF “formou maioria” para assumir o protagonismo da política contra a direita desarmada. Com o poder das canetas, compôs sua narrativa, se impôs ao Congresso, se opôs ao governo Bolsonaro e calou os “manés”.

 

Nesse período, a direita emergente passou a ser vista como perigosa pelos que se proclamavam vítimas dos governos militares. Com Bolsonaro, porém, ela se popularizava, identificando-se com conservadorismo e livre mercado, ingressando numa fase de afirmação de princípios e valores cristãos, em antagonismo à agenda estatista, revolucionária, antiocidental e identitarista da esquerda.

 

O inusitado protagonismo político do Supremo se deveu, então, à expansão da direita, à retração da esquerda desacreditada após os insucessos e escândalos de três mandatos consecutivos do petismo, e à numerosa maioria oposicionista no STF. O ativismo ganhou o nome de papel “contramajoritário” do Tribunal. Como a palavra final da última instância do Judiciário é a coisa mais definitiva do país, o Supremo, politizado, foi absorvendo incumbências institucionais e ficando mais e mais parecido com o Conselho de Segurança Nacional durante os governos dos militares. A Primeira Turma é seu núcleo “linha dura”.

 

Ao longo da história universal, sem exceção, poderes que tudo podem trazem às próprias mãos todas as decisões de seu interesse. E a autoritária política sem voto das togas vai aumentando a semelhança com a política autoritária e sem voto das fardas... Agora, como antes, sem a anistia ampla, geral e irrestrita não há retorno bom às liberdades constitucionais e à democracia.

 

Na melhor tradição do Ocidente, Justiça e Política podem coabitar, mas não devem dormir na mesma cama. O AI-5 fechou por dez meses o Congresso Nacional que quis preservar sua independência. Já há alguns anos, salvo honrosas e dignas exceções, intimidado pelo poder que tudo pode, a despeito dos bravos e livres, a maioria do Congresso terceirizou essa independência. Entregou os dedos da representação para preservar os anéis da reeleição.

 

 


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