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O DESTINO DAS BOLHAS - 19.08.2020


por Percival Puggina       

 

 

Tenho setenta e cinco anos e cheguei a essa idade prematuramente, devo dizer. Nasci no tempo da manivela. Só em Havana vi tantos carros antigos quanto na minha infância em Santana do Livramento. Aqueles, aliás, eram os brinquedos dos adultos. Os meus eram de corda como a esplêndida baratinha vermelha conversível, com seus 5 ou 6 centímetros de pura potência. Nos anos 60, cursei arquitetura fazendo operações com uma régua de cálculo e até 1993, colunista do Correio do Povo havia quase 10 anos, ainda escrevia numa Olivetti portátil porque me pareciam sofisticadas e complicadas demais as máquinas elétricas de escrever.

 

Acho que isso dá uma idéia da distância a que eu estava de um computador no início deste século. Aí, o professor Cezar Saldanha Souza Junior, mestre e querido amigo, me passou uma descompostura pelo meu atraso em relação às novas tecnologias. O doutor Eduardo Henrique de Rose, amigo de fé, irmão, camarada, me instruiu no manuseio de um notebook. O enorme constrangimento inicial com as novas máquinas foi se transformando em amável intimidade. No meio do caminho topei com as facilidades da Internet e me tornei um turista nada acidental, navegador no mundo da comunicação instantânea.

 

Assim, chego a este trecho final da vida, com a plena consciência de que nosso país não pode andar mal quando tudo se faz tão ágil. Há quase quarenta anos - quarenta! - venho  me dedicando a uma tarefa de formação da consciência política daqueles com quem me comunique. Meu sonho de um Brasil melhor nasceu na redemocratização e foi hospitalizado, logo adiante, por falta de oxigênio, nas alegorias populistas do processo constituinte. Se nele estivesse, eu teria sentado ao lado de Roberto Campos, contra cujas convicções o Brasil escolheu instituir um prodígio histórico mundial: o primeiro estado de bem estar social em nação pobre. De um modo ou outro esse sonho ainda hoje embala muitas noites, seja em mesas de bar, seja em redes sociais, seja no indisfarçável egoísmo organizado dos "coletivos". Quanto tempo perdido, Senhor!

 

"O que fazer?", me perguntam com frequência. Os caminhos da democracia, sendo ela feita por gente, precisam de convencimento e formação de amplos consensos. Então, eu creio que expor a verdade sobre atitudes e ações dos agentes políticos, ativos e passivos, é uma forma boa de acelerar isso e é o que tenho feito. O Brasil vive em crise porque seu modelo institucional as estimula e não as resolve. Apenas entra numa bolha que logo adiante cumpre o destino das bolhas. Não podemos nos permitir isso. O Brasil precisa de correções, tanto quanto alguns de seus agentes precisam de corretivos... 

 

Na atual configuração política e institucional do Brasil, não hesito em afirmar: o pior STF da história e um Congresso com os vícios habituais, dedicado, na melhor hipótese a não fazer o que deve, e na pior a fazer o que não deve, assustam tanto quanto a pandemia. Informar para a formação daqueles consensos indispensáveis, retirando da passividade a maioria da população, hoje paciente maior das crises, acaba por expor seus agentes ativos, ameaçando-lhes as carreiras. A grande mídia muito pouco tem servido para isso.

 

Eugène Ionesco afirmava serem os inimigos da história os que acabam por fazê-la. Nem sempre é, nem precisa ser assim. Se passado se descreve, o futuro se escreve e é possível agilizá-lo. A ideia da intervenção, a propósito, é apenas paralisante porque inibe alternativas e, sabidamente, não vai acontecer. Se acontecesse seria apenas mais uma bolha que explodiria restaurando a crise anterior. Como ocorreu em 1985 e se danificou ainda mais em 1988.

 


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A ARMADILHA PERFEITA - 17.08.2020


 por Abrahão Finkelstein  - Primeira parte

A armadilha é mortal e nós estamos presos nela. O aparato estatal tornou-se um fim em sí mesmo que foi aos poucos, e aos muitos, corrompendo, alterando e capturando as funções do Estado, servindo-se dele em benefício próprio.
 

     A força de trabalho da nação - acuada e extorquida pela pilhagem dos que ostentam mandatos, cargos, funções, sinecuras, direitos adquiridos, foro privilegiado, altos salários, gratificações, estabilidade, aposentadorias até após a morte - geme e sangra. Às vezes vai às ruas e protesta.

 

     O imoral e escandaloso assalto aos cofres públicos, perpetrado pelos verdadeiros donos do país cuja filosofia de vida é "Mateus Primeiro os Meus", faz beiçinho e ameaça não brincar mais se forem contrariados. Eles têm o poder de parar o país, trancar projétos, desprezar urgências e mitigar necessidades. Com eles é assim: Ou dá, ou desce.

 

     Debruçados sobre o cadáver insepulto de nossas expectativas, fazemos o que podemos. Produzimos artigos, nos mobilizamos nas redes sociais, protestamos e sonhamos em viver novamente num país normal. Mas como? se a armadilha foi construida para ser indestrutivel? Pois é desse material - democracia - que ela foi feita passo a passo, com aplicação e zelo.

     As corporações, incansáveis na busca de mais e mais benefícios para sí próprios, agem sem constrangimento junto aos poderes da República. Nem o presidente pode fazer algo pois está preso nessa armadilha como todos nós. Muitos de nossos representantes se julgam donos do mandato que o povo lhes conferiu. Eleitos, representam agora a sí mesmos. Nos traem diariamente em benefício do partido ou deles próprios.

 

     Então, metaforicamente, temos algo parecido com um grande bolo de noiva, cuja massa bem socada, é um povo que luta, luta e não chega nunca, cozido em fogo lento, e depois enfeitado com marron glace na parte superior para os mais iguais e com açucar mascavo na de baixo, servido aos pagadores de impostos, cidadãos de segunda classe que sustentam essa gigantesca cornucopia de privilegios do andar superior.

 

Tudo muito democrático, tudo muito sórdido, tudo muito canalha e tudo muito difícil de engolir.

 

Como sair desta?*


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TEMAS SENSÍVEIS E TIRANIA TOGADA - 17.08.2020


por Percival Puggina. Artigo publicado em 16.08.2020

 

Alexandre de Moraes, dizendo citar James Madison: “Toda tirania deve ser afastada, inclusive a tirania da maioria”. (1)

Deu um nó na cabeça de muita gente a frase de Alexandre de Moraes. No entanto, ela talvez seja a mais clara expressão da atual crise da democracia em nosso país. Essa crise é patrocinada, de um lado, por um Congresso Nacional habituado às piores práticas, composto por congressistas que, majoritariamente, se creem titulares do direito de dispor dos recursos públicos em modo privado. Se insatisfeitos nessas demandas, ficam emburrados e lançam pragas e maldições contra o governo. Na versão hardcore, tais recursos são usados para financiar campanhas eleitorais e partidos; na versão softcore, disponibilizados às respectivas bases, contabilizando a quem os obtém, méritos pessoais para futuros pleitos. De outro lado, a crise é patrocinada por um Supremo Tribunal Federal que, desde 2019, se tornou o principal protagonista da política em nosso país. Seus membros, performáticos, midiáticos, abandonaram as regras da prudência e da discrição e se dedicam a corrigir as pautas vitoriosas na eleição de 2018.

Senta-se nessa Corte, também conhecida como Pretório Excelso, o novato Alexandre de Moraes apreciador e aplicador da frase em epígrafe. Em tempo algum o Supremo Tribunal Federal se sentiu tão excelso, tão perto do Olimpo e de seus deuses quanto nestes dias. Na avaliação dos senhores ministros é imperioso fazê-lo. Eles tinham uma agenda que foi atropelada pelo bolsonarismo, como esclareceu o futuro presidente da Casa, ministro Luiz Fux, em entrevista à Veja.

Entendamos um pouco melhor a atual composição da Suprema Corte. Eles não são os onze melhores juristas do país, embora assim se vejam. Longe disso! Fora daquele plenário, há inúmeros mais sábios, com mais ampla visão de história, com melhores títulos e formação cultural realmente excelsa. O critério que levou oito deles para o STF é o alinhamento político-ideológico com os governos de suas excelências Lula, Dilma e Temer. Deus que os perdoe. À época de sua indicação, eles alcançaram nota máxima nesse quesito. Portanto, quando o ministro Luiz Fux manifesta em entrevista à Veja que o bolsonarismo se atravessou à agenda ele está se referindo e se atravessando, ele sim, àquela que talvez tenha sido a mais robusta razão do resultado eleitoral de 2018.

Há uma série de temas em relação aos quais a maioria conservadora e liberal vencedora do pleito tem posição firmada. Ela é a favor da Escola sem partido, do direito à vida a partir da concepção, da instituição familiar e de sua prioridade na educação dos filhos, da proteção à inocência infantil, do homeschooling, do combate à impunidade, da prisão após condenação em segunda instância; e é contra ideologia de gênero, aborto, desarmamento, impunidade, prisão apenas após trânsito em julgado de sentença penal condenatória, a falsa democracia dos conselhos corporativos inseridos nos órgãos de estado, governo e administração (sovietes). Em sua maioria, esses assuntos são temas sensíveis, como virou moda dizer, e envolvem posições conflitantes. No Ocidente, constam de três agendas: a dos conservadores, a esquerdista e a das Supremas Cortes. Passo a passo, com infatigável persistência, mesmo nos regimes democráticos, a esquerda contorna os parlamentos transferindo as decisões para o ambiente restrito dos pretórios excelsos. “Fora conservadores!”, parecem dizer suas agendas internacionais.

É assim que avança no mundo a tirania da minoria.


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LIBERAL POR CONVENIÊNCIA? Não, obrigado!


Por Roberto Rachewsky

   

Existem dois tipos de liberais. O liberal por princípio e o liberal por conveniência. O primeiro, chamado também de liberal-raiz é moralista ao extremo, radicaliza na defesa de uma ética individualista que olha o ser humano como algo munido de características únicas entre os seres vivos que fazem com que ele precise para viver de um ambiente adequado para que possa criar, produzir, manter e consumir as coisas que o irão manter.

   

    Criar, produzir, manter e consumir são ações individuais que visam prover valor para usufruto do próprio ator com o propósito deste de realizar as coisas que deseja para si ou para os seus. O liberal-raiz não responde pelos outros as inevitáveis perguntas: - "Esse bem, esse produto, esse serviço, tem valor para quem e para o quê?". O liberal-raiz permite. Ou melhor, defende, luta, para que cada indivíduo responda tais perguntas para que possa exercer o que a sua natureza, o que o seu ser exige moralmente, a liberdade e a responsabilidade de prover para si, com o próprio esforço, aquilo que o permitirá, no mínimo, existir e, no máximo, ser feliz por mérito próprio.

   

    O liberal por conveniência é utilitarista. Defende a liberdade porque entende que ela é um meio justificável, não por causalidade intrínseca, mas pelos fins que se pretende atingir. O liberal por conveniência é pragmático, tudo que tiver que ser feito para atingir os objetivos aos quais ele se dedica, deve ser feito, independentemente de qualquer princípio. O princípio do pragmático é não ter qualquer outro princípio que não esse. Para o pragmático, para quem e para o quê serve determinado valor a ser criado, produzido, mantido e consumido não é respondido individualmente pelo ator, mas sim por ele, que se vê na condição de um grande regente da vida em sociedade. Para o pragmático, o objetivo é satisfazer a vontade do maior número de pessoas da melhor forma possível, independentemente dos sacrifícios que ele tiver que causar a quem quer que seja. Menos a ele, é óbvio.

   

    Quando eu digo que há liberais por conveniência, eu quero dizer que esses não são a favor da liberdade incondicionalmente. Volúveis, acreditam que há circunstâncias nas quais a liberdade é inconveniente, mesmo sendo o seu exercício ou a sua defesa moralmente justificados. O liberal por conveniência se molda às circunstâncias como um Zelig do Woody Allen, cuja aparência e comportamento se moldam ao ambiente em que estão inseridos, não como forma de reconhecimento da realidade mas porque tolerar o intolerável é mais confortável. O liberal por conveniència, se tiver que se tornar seu oposto, não hesita nem um pouco, se adapta pragmaticamente e achará justificativas razoáveis para defender seu ponto.

   

    Há várias escolas de pensamento liberal, entre elas aquela criada por Ayn Rand que colocou de pé uma filosofia própria, baseada em pensadores clássicos como Aristóteles. Ayn Rand foi descrita por Milton Friedman, pai de outra escola de pensamento liberal, como uma radical, extremista e intolerante. Não apenas ela, mas Ludwig von Mises, outro liberal por princípio, foi por taxado de inflexível.

   

    Ayn Rand dizia que a pior filosofia que há é o pragmatismo. Para ela, e para mim também, o pragmatismo não apenas abre mão de princípios, mas subverte também o que faz com que sejamos diferentes dos outros animais, a capacidade única e indispensável de fazermos abstrações.

   

    Na política, os pragmáticos tendem ao autoritarismo. Para satisfazer o maior número possível de pessoas, não se importam de violar os direitos individuais de ninguém. Dizem saber o que é melhor para a maioria do povo e para não sofrer oposição, quando não usam de coerção exacerbada, cultuam o relativismo moral e o subjetivismo conceitual, sem deixarem de monopolizar as virtudes e as verdades sofismando para aqueles que tiveram sua capacidade de pensar tolhida com a corrupção da linguagem, tática que permite a perversão dos conceitos, a inversão dos valores e a destruição da capacidade de abstração que faz com que os seres humanos possam criar e produzir os valores necessários para civilizarem-se.

   

    Liberais por conveniência são o elo fraco dessa espécie rara. Sua falta de convicção principiológica é que transforma a luta para a implementação do capitalismo laissez faire, o sistema social onde os direitos individuais são considerados inalienáveis, numa guerra inglória. A defesa do capitalismo não pode ser utilitarista, isso seria contraditório. Nem pode se dar por mera conveniência. Não é porque o capitalismo oferece melhores condições sócio-econômicas para as sociedades, que ele deve ser defendido. O capitalismo é o melhor sistema porque é o únicoo que reconhece que o ser humano é racional e, para viver como tal, precisa necessariamente do direito à liberdade e à propriedade para realizar seus sonhos na busca incessante pela felicidade.

   

    O capitalismo não é o sistema no qual os indivíduos se associam e interagem com o objetivo de servir a sociedade. O capitalismo é o sistema social que reconhece que cada indíduo é um fim em si mesmo e sua liberdade e propriedade tem uma razão só de ser defendida, a própria felicidade de quem pensa e age livremente para usufruir dos frutos do seu trabalho.

   

    Uma sociedade é próspera no capitalismo porque toda sociedade é copmposta de indivíduos e se os indivíduos conseguem florescer e prosperar, é fácil constar que a sociedade por eles formada floresceu e prosperou. Nenhuma sociedade prospera à revelia dos indivíduos que dela fazem parte. Isso, nenhum liberal por conveniência dirá, porque pode não ser suficientemente conveniente dizer.

   

    Como eu sou um liberal-raiz, eu digo com convicção e com intrangigência que sociedades planejadas centralmente, onde economias mistas proliferam, onde os governos são imbuídos de fazer pelos indivíduos, o que estes deveriam fazer para si, não tem nada de capitalismo porque a ética do coletivismo estatista sufoca o indivíduo que se vê como um fim em si mesmo.


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INSTITUTO de FORMAÇÃO de LÍDERES - 13.08.2020


    Casualmente, no dia em que Salim Mattar demitiu-se do governo, eu estava palestrando para uma turma de jovens associados do IFL (Instituto de Formação de Líderes) de Brasília.

   

    Os IFLs são entidades independentes criadas e mantidas pelo Salim a partir da transformação dos capítulos do IEE em institutos autônomos, sendo que já há vários em funcionamento no Brasil..

   

    Por maior que fosse o bem que Salim Mattar pudesse fazer trabalhando no governo, nenhuma das suas ações se equipararia com sua contribuição para um futuro alvissareiro para o Brasil do que a formação de jovens lideranças.

   

    É evidente que os liberais chegaram ao governo um pouco cedo demais. Não apenas isso, parece que chegaram lá pelas mãos erradas. Ainda não há uma massa crítica de liberais na burocracia estatal nem no Congresso para fazer-se o que é preciso ser feito, separar o governo da economia, da educação, da saúde, da previdência. da ciência e da infra-estrutura.

   

    A possibilidade real para se fazer mudanças que resultem na consagração do individualismo na ética e do capitalismo na política, é algo que precisa ser amadurecido ao longo de décadas com a evolução cognitiva e cultural daquela parte da sociedade que decide exercendo o poder.

   

    Salim Mattar é um sujeito diferenciado, mas ele não conseguiu desarticular os ferrolhos que impedem o desenvolvimento econômico e social no Brasil porque não é essa a mentalidade reinante.

   

    No entanto, quando se sabe que milhares e milhares de jovens são formados todos os anos por instituições como o IFL, IEE, SFL, IMB, IL, Atlantos, Líderes do Amanhã e tantas outras, temos a convicção que a hora dos liberais chegará.

   

    Salim Mattar tem trabalhado incessantemente para que isso se realize. Ele exerce um papel muito mais importante atuando na iniciativa privada, tanto como empresário quanto como ativista, do que no governo.

   

    Não tenho a menor dúvida disso porque eu conversei com 22 jovens de diversos lugares do Brasil que estão vivendo em Brasília e usufruem dessa oportunidade extraordinária que Salim Mattar oferece para aqueles que acreditam na liberdade como fator de mudanças positivas para o Brasil. O que colhi dessa conversa é o que venho colhendo há anos, a convicção de que tempos de liberdade se aproximam.


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IDEOLOGIA DO CEMITÉRIO - O "Partido Funerário Brasileiro" e a volta do distanciamento social - 11.08.2020


por J.R. Guzzo

 

 

Manifestantes aproveitam a marca de 100 mil mortes pela Covid-19 para protestar contra o governo Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro.|

 

O Partido Funerário Brasileiro, criado junto com a Covid-19, está jogando neste momento todas as fichas que tem e que não tem numa ofensiva maciça para ganhar uma causa que, à esta altura, não parece mais com cara de que ainda pode ser ganha. O PFB, que nos quatro ou cinco meses de epidemia mandou como ninguém neste país, é uma confederação que junta, para resumir as coisas, todo o mundo que de uma forma ou outra tem horror ao governo federal; todos aí acham que ou o Brasil acaba com ele, como teve de acabar com a saúva, ou ele acaba com o Brasil.

 

Em sua tumultuada coleção de pensamentos, acreditaram – e querem continuar acreditando – que colocar o país trancado “em casa” era uma chance caída do céu para se livrarem de Jair Bolsonaro e suas obras. O problema é que a Covid está deixando de colaborar. Em vez de ficar cada vez pior, parece ter estacionado. O resultado é que a “quarentena” como o PFB exige – total, irrestrita e sem data para acabar – está sendo reduzida pelas autoridades. Não pode. Qualquer passo no rumo de uma vida mais normal tem de ser combatido com a fé de uma cruzada tamanho XXXXXG.

 

Os principais militantes dessa ideologia de cemitério estão na mídia e, de um modo geral, naquilo que é descrito como “campo progressista”. A ofensiva do momento é para fazer com que o “distanciamento social” volte a ser o que era. É complicado. A grande vitória do PFB foi a decisão do STF que deu às “autoridades locais” a exclusividade no combate à Covid-19. Em poucos dias, livres da intervenção do governo central e com poderes de ditadura, pararam o Brasil; foram aplaudidas como heróis da pátria.

 

Mas de umas semanas para cá elas vêm permitindo uma retomada gradual das atividades humanas, pela aparente estabilidade no número de vítimas. E agora? Não dá para jogar a culpa no presidente da República, pois quem está acabando com a “quarentena” são os grandes patriotas de anteontem. Dá para acusar o homem de “genocídio”, por não usar máscara em público, etc, etc, etc. Mas para voltar ao confinamento será preciso combinar com 27 governadores e 5.500 prefeitos. Não está dando, porque eles não querem continuar nessa vida.

 

A esperança do pró-Covid-19 é que as mortes aumentem de forma dramática – mas como esse fator não pode ser controlado, a saída está sendo dobrar a aposta no pânico. A mensagem é: “Fique em casa, mais do que nunca – se não você vai morrer ou matar a sua família.” Como já não se pode mais contar com os governadores e prefeitos, a arma mais utilizada pelo partido tem sido esses médicos promovidos a Prêmio Nobel de Medicina por jornalistas que não sabem o que é um melhoral. Sua principal especialidade clínica, em geral, é dar entrevistas à televisão; todos têm uma fé sem limites na força do vírus.

 

A última realização do PFB foi um apavorante pacote de declarações do seu doutor mais “raiz”. Em seu manifesto à nação, ele afirmou que é um ato de demência afrouxar o “distanciamento social”. As escolas têm de continuar fechadas – a começar pelas que educam os 50 milhões de crianças e adolescentes da rede pública de ensino. O trabalho fora de casa não pode ser permitido. Andar na rua sem máscara é um comportamento equivalente à prática de crime. Mesmo quando for descoberta uma vacina, a quarentena precisará ser mantida, pois essa vacina não vai adiantar nada – e, de qualquer jeito, levaria anos até a ciência ter certeza de sua eficácia.

 

Soou como um manifesto desesperado – depois que o Brasil passou o número mágico das 100 mil mortes e o público em geral não se mostrou mais afetado pelo clima de medo do que já estava, o PFB parece resolvido a tudo."

 

Gazeta do Povo.


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