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FERRAMENTAS DO AUTORITARISMO


Por Percival Puggina

 

Também acho que fake news são uma praga. Elas promovem uma convergência entre os mal intencionados e os ingênuos para alcançar, muito provavelmente, um efeito político desejado por ambos. Entre nós, a verdade foi de tal modo relativizada e a mentira tão industrializada para ser servida em quantidades multitudinárias, que os velhos censores mentais da razão e da lógica entraram em colapso. Acredite, se quiser, como diria Jack Pallance.

 Por outro lado, como já escrevi anteriormente, enquanto a pilantragem das fake news tem meios limitados para iludir a opinião pública, e normalmente produz algo parecido com cédula de três reais, a grande mídia militante, engajada, dispõe de recursos técnicos de manipulação que começam na seleção de matérias, e seguem nas manchetes, nas imagens, na produção dos conteúdos, na coleta orientada de opiniões, no vocabulário, nos tons de voz, nas expressões fisionômicas, nas suítes e por aí vai. Destaque especial deve ser dado às análises falsas – as fake analysis – capazes de extrair dos acontecimentos conclusões que neles não cabem. Como o coração, as fake analysis dos fatos têm razões que os fatos mesmo desconhecem.

 Acessei o site do Senado Federal para ler o teor do PL 2630/2020 conforme aquele parlamento o aprovou. Não encontrei o que queria, mas vi que o projeto do senador Alessandro Vieira foi apresentado no dia 13 de maio e saiu aprovado do plenário no dia 30 de junho. Ou seja, em apenas um mês e meio e em aborrecidas sessões remotas, sem público nem debates, esse ataque à liberdade de informação, montado na covid19, surfou um plenário vazio e foi em frente para a Câmara dos Deputados.

Isso tudo mostra que o projeto, seu trâmite, o trabalho do relator, a votação e a aprovação foram resultado de minucioso roteiro e cronograma combinados na “cocheira”. Aprovações assim, vapt-vupt, quase sempre envolvem interesse próprio dos parlamentares e ferram os cidadãos. O interesse próprio, sabe-se bem, é a mais intensa das motivações. Quando está em jogo, faz o texto e a estratégia; é o motor e o combustível da rápida tramitação.

A maioria dos senadores se valeu do movimento de opinião criado em torno do fenômeno das fake news para avançarem seus objetivos de autoproteção. Exatamente o mesmo que os ministros do STF, sob o comando de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, estão conduzindo para constranger o antagonismo da sociedade, a liberdade de opinião e o trabalho de jornalistas com foco no Supremo e seus ministros.

Leia o projeto. Vale a pena. São 31 artigos e cerca de 120 preceitos para constranger, complicar e acabar com a liberdade nas redes sociais imobilizando-a num emaranhado de regras que, melhor do que qualquer discurso, caracteriza muito bem a intenção de quem o apoia.


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A GUIA DO IPTU É ATIVIDADE ESSENCIAL - 08.07.2020


   Por Felipe Camozzato

 

O Nobel em economia Friedrich von Hayek muito falava em dispersão do conhecimento. Dizia ele que, na sociedade, nenhuma pessoa sozinha consegue saber mais do que o conjunto de indivíduos. É impossível, portanto, um governante tomar as melhores decisões, já que cada um sabe o que é melhor para a sua vida. Da mesma forma, liberdade pressupõe responsabilidade em assumir os riscos e consequências de nossas decisões – e só cada um de nós está apto para decidir o grau de risco ao qual nos sujeitamos, e que consequências concordamos em arcar.

   

    As decisões de restrição das atividades econômicas, do impedimento do ir e vir do cidadão, e mesmo da multa e coerção quanto ao comportamento individual, ferem a racionalidade da tomada de decisão e sequestram das pessoas sua dignidade. Ao mesmo tempo, as incoerências observadas nas medidas fazem perder o engajamento civil, a falta de transparência causa perda de credibilidade nas decisões, e a falta explícita de prioridades ao torrar dinheiro público em publicidade oficial – em vez de auxílios, equipamentos e medicação – incendeia revolta de trabalhadores e empreendedores.

   

    Eis que o representante eleito por voto, que recebe um mandato para representar o cidadão em seu espaço de poder constitucional para tal, rompe com esses limites e passa a ditar quais trabalhos e atividades são essenciais e quais deverão ser interrompidas. O faz sem consultar o parlamento, mas com o amém dos órgãos de controle que somente lhe observam, e respaldado por um Supremo Tribunal que decide à revelia da Carta Magna, sob crença e motivação pessoal ou política de seus membros.

   

    O resultado? Um casal de idosos que precisa ir ao centro da cidade, e que usa seu carro para evitar se aglomerar em um ônibus, não terá onde estacionar. O Prefeito proibiu o estacionamento em área azul. Nos ônibus, nada de vale transporte ou pagamento em dinheiro se você não é trabalhador “essencial”. “Não essenciais”, fiquem em casa!

    Porém, como parte desta população “não essencial” se deslocará ao supermercado para consumir o “essencial”? Talvez o Prefeito queira que eles vão a pé, já que o exercício físico é um fator importante para aumentar a imunidade – e a obesidade é uma das mais relevantes comorbidades para a Covid-19. Pensando bem, creio que não. Afinal, quase todos os profissionais do esporte e da prática física também não são “essenciais”, e estão impedidos de trabalhar neste momento.

   

    Mas, afinal, o que é “essencial”? Alimentos, dizem uns, remédios, dizem outros. Pois essenciais são os repasses federais e estaduais. São os pagamentos de IPTU em dia. São as obras públicas que nunca pararam e as belas filmagens e tomadas ao vivo direto da maior pista de skate da américa latina. Essenciais são as matérias e opiniões que favorecem este governo, e não essenciais são as opiniões e críticas que desagradam ao Paço Municipal, pois são desumanas, ignorantes e/ou desaconselhadas cientificamente.

   

    Quem sabe, em breve, essencial também será o tratamento de que todo cidadão deve ser livre nas suas escolhas e responsável por suas ações. E, torço ainda mais, que também torne-se essencial ao gestor público a ciência da dispersão do conhecimento – e sua máxima de que nenhuma decisão sobre a vida alheia será mais acertada do que a decisão destas próprias vidas, sob a devida orientação do risco e da consequência assumidos a partir dela.


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Prefeitos e governadores, relaxem.


 

Por Roberto Rachewsky

 

Não se preocupem tanto com o avanço do contágio. É assim que a natureza funciona. Vamos vencer a guerra do jeito que a natureza deseja, através da imunização gradativa. Haverá vítimas e isso é inevitável.

 

Sei que todos estão querendo conter a transmissão viral com vontade indômita, mas pessoal, não podemos aceitar a violação de todos os nossos direitos individuais inalienáveis.

 

Tenho testemunhado seus esforços para mostrarem serviço, e venho aqui para dizer com muito respeito, parem!

 

O mal que estão causando à sociedade é maior do que qualquer pandemia poderia causar sem todos esses esforços de vocês.

 

É preciso revisar suas premissas.

 

Não vou tratar aqui de ciência porque a ciência ainda não respondeu com certeza todas as dúvidas levantadas pelos próprios cientistas.

 

Pelo contrário, falsificar pretensas verdades absolutas tem sido a única coisa constante que tem se mantido ao longo desses quase seis meses de especulações sobre o coronavírus, a Covid-19 e a maneira correta de lidar com o problema em todos os seus aspectos.

 

O desejo de não parecerem políticos desidiosos tem feito vocês pensarem e agirem como tiranos.

 

A tirania normalmente advém do desejo de controlar os outros na busca de um estado geral de bem estar utópico, o da satisfação de ambições sórdidas.

 

Ocorre que há circunstâncias, que por mais que nos esforcemos, precisamos aceitar nossa impotência perante forças que não conseguimos controlar como gostaríamos.

 

O medo de que o povo confunda impotência com desídia é um dos motivos, talvez o principal, que levam líderes, políticos ou não, à hiperatividade.

 

No caso da imensa maioria, essa hiperatividade está traduzida nos decretos draconianos e abusivos, arbitrários e autoritários que tem sido impostos a homens e mulheres, adultos, livres e independentes.

 

Gente que inclusive paga seus salários expressivos e que, por vontade própria, até elegeram vocês.

 

É um contrassenso imaginar que seus eleitores não têm consciência do que fazem.

 

Será que isso é fato recente ou já era assim quando vocês foram eleitos por eles?

 

Aquele que passa a pensar como um tirano, acabará agindo como um tirano.

 

Tiranos não estão preocupados se seus súditos estão fazendo a coisa certa. Sua preocupação é saber se os cidadãos estão obedecendo as ordens.

 

Uma das técnicas para avaliar o grau de obediência da população é mudar as regras a todo momento, criando, inclusive,  éditos contraditórios entre si para que a sociedade perca a noção de verdadeiro e falso e de certo e errado.

 

Para ser lembrado o tempo todo, o tirano não pode aceitar a conformidade do seu povo, deve gerar aqui e ali um estado tal de desconforto que crie em cada indivíduo sentimento de culpa, cultivado pela dúvida entre se é o tirano que impõe leis inexequíveis ou se é ele, o pobre coitado, culpado por desobedecê-las por incapacidade própria.

 

É assim que o governante quer se mostrar potente mesmo que suas ações não façam sentido ou não venham a apresentar os resultados esperados.

 

Quando um governante transfere a responsabilidade aos súditos para o atendimento de objetivos inalcançáveis, ao final da jornada, ficará mais fácil para ele  responsabilizá-los pelo eventual fracasso.

 

Governantes, a natureza que mata, e os médicos e cientistas que defendem a vida, são os protagonistas nessa batalha.

 

A única coisa que um governante deve fazer no caso de uma pandemia para não ser acusado de desídia, coisa que por sinal reúne racionalidade, moralidade e eficácia comprovadas cientificamente, é a proteção daqueles que ainda não foram contaminados.

 

Isso se faz através da adoção de testagem, rastreamento e quarentena seletiva e compulsória de infectados que devem ser segregados pelo tempo necessário de catorze dias, seja porque apresentam sintomas ou porque foram testados.

 

Não faz sentido misturar todo mundo em casa onde o contágio é muito mais provável, como já foi também demonstrado empiricamente.

 

Políticos, reflitam.

 

Deixem descansar suas canetas. Ou melhor, usem-as apenas para devolver aos indivíduos o que lhes foi tirado, aquilo que é tão caro quanto a vida: o direito à liberdade, à propriedade e à busca da felicidade, sem os quais nenhuma vida vale a pena ser vivida.

 

Para encerrar, apresento um trecho de um artigo do filósofo Objetivista Harry Binswanger sobre o que leva alguém a agir como um déspota.

 

É para ler em voz alta e ficar cinco minutos refletindo perante um espelho:

 

“A preocupação do ditador é o poder. Ter poder sobre alguém é ser capaz de fazê-lo fazer o que se deseja [...] O ávido por poder busca prova de que você está agindo com base em ordens, não apenas de acordo com as ordens.

 

Para obter essa prova, ele deve mudar constante e arbitrariamente suas ordens: não há como agradá-lo; quando você obedece, ele reverterá suas ordens; ele busca obediência por causa da obediência e destruição por causa da destruição.”

 

Prefeitos e governadores espalhados pelo Brasil, provem que esse não é o seu caso.


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O HOLOCAUSTO DOS POSTOS DE TRABALHO - 06.07.2020


por Percival Puggina

 

 Há dois dias a Folha de São Paulo abriu manchete para a informação de que “a pandemia aniquilou 7,8 milhões de postos de trabalho no Brasil”, acrescentando que, pela primeira vez na história, menos da metade das pessoas em idade de trabalhar está empregada. Indo um pouco mais fundo, sem sair da superfície, a matéria informava estarem incluídos naquele número pavoroso 5,2 milhões de trabalhadores por conta própria, ou sem emprego formal. Os dados foram fornecidos pelo IBGE.

 Agora, digo eu: Uau! Quem poderia imaginar uma coisa dessas? E respondo: algo assim era perfeitamente previsível por quem tem um mínimo de objetividade; basta, simplesmente, assistir como, há quatro meses, empresas e postos de trabalho vêm sendo assassinados a sangue frio. Imagine cinco milhões e 200 mil pessoas, numa situação de trabalho vulnerável por natureza, sendo obrigadas a fechar, apagar a luz, desligar o computador, fechar a porta e dar bilhete azul a seus sonhos e meios de subsistência. Imagine essa pessoa, depois, trancada em casa pela simultânea necessidade e inutilidade de sair, ligada nos noticiários que só contam mortos, à espera de algum burocrata disposto a pintar amarelo sobre o vermelho que cobre sua região no mapa do Estado.

 Aqui no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, de onde escrevo, durante um curto período de “flexibilização” que se seguiram a três meses de isolamento, fui com minha mulher a três restaurantes que habitualmente frequentamos. Queria falar com os donos, cumprimentar os garçons conhecidos de muitos anos, ter notícias sobre o período de travessia em que esses estabelecimentos, sempre movimentados, passaram a atender por tele entrega. Num deles, com o salão todo rearranjado para o distanciamento, não havia ninguém; quando saímos, apenas um cliente entrara.

Noutro, uma família com cinco ou seis pessoas era a única ocupante de uma das salas; nós fomos os únicos, também, no compartimento ao qual nos conduziram. No terceiro, a situação estava um pouco melhor, menos lugares, mesas afastadas, e, ainda assim, nesse arranjo, sequer uma terça parte das cadeiras ocupadas. Pois nem com isso, nem assim, lhes foi permitido manter o estabelecimento em operação. Porto Alegre fechou seus restaurantes dois ou três dias mais tarde.

 Vem-me à mente o humor ferino de Grouxo Marx, dotado da perenidade devida aos bons frutos da sabedoria: “Você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”. Ou na veracidade, a pedir a nobreza do mármore, enunciada por Thomas Sowel e enviada pelo amigo Dr. Luiz Marcelo Berger enquanto escrevo este texto: “Difícil imaginar maneira mais perigosa de tomar decisões do que deixá-las nas mãos de pessoas que não pagam o preço por estarem erradas”.

Você vai acreditar em seus próprios olhos, ou em quem o levou pelo nariz aonde quis e se prepara, agora, para abastecer seu desânimo e sua psicose com os péssimos números da pauta econômica. O vírus atingiu um índice infinitesimal da população, mas as notícias nos fizeram adoecer. Estamos todos passando mal, numa UTI psicológica cujas portas talvez nunca venham a reabrir completamente.


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É O CARATER, ESTÚPIDO! - 03.07.2020


Neste texto, o pensador Roberto Rachewsky faz referência ao -FALSO LUTO- do governador Eduardo Leite, do RS.   

 

Não costumo me manifestar no mural dos outros porque acho inconveniente.

 

Cada um tem o direito de expressar seus pensamentos e defendê-los como bem entender no seu cercadinho virtual.

 

Eu faço isso o dia inteiro.

 

Tem gente que acha que o ministro que durou uma semana no cargo foi mal tratado por ser negro. Como é que é? Foi a pergunta que me fiz ao ler isso num post qualquer.

 

Ora, o professor Decotelli é negro, isso é auto evidente, mesmo assim foi convidado com pompa e honrarias para tão nobre cargo.

 

O que não era auto evidente e deveria ter sido investigado antes do convite, era se o professor tinha todas as credenciais que apresentara.

 

Viu-se depois, que não tinha algumas das que alegava ter e que tinha outras que por motivos pérfidos, imagino, alguns negaram que tivesse, como foi o caso da FGV.

 

Certamente, ele não é o único a ter caído na tentação de inflar suas virtudes. Outros já fizeram isso, casos notórios são os de Dilma Rousseff e Alexandre de Moraes, como pudemos ver na imprensa.

 

Obviamente, o professor Decotelli não fez o que fez por ser negro. Tampouco Dilma Rousseff ou Alexandre de Moraes o fizeram por serem brancos. O que leva alguém a fraudar informações para tentar enganar os outros, ganhando o imerecido, tem a ver com a autoestima baixa, assim como com uma deficiência de caráter.

 

Ayn Rand resume bem a idiotice dos coletivistas identitários que querem tratar tudo considerando apenas características congênitas imutáveis que em nada influenciam nas escolhas de cada um.

 

Para esses que vivem julgando os outros com base no seu próprio racismo ou coletivismo, o que negam peremptoriamente possuir para se auto concederem o monopólio da virtude, Ayn Rand tem o seguinte a dizer:

 

“A genius is a genius, regardless of the number of morons who belong to the same race—and a moron is a moron, regardless of the number of geniuses who share his racial origin.”

 

“Um gênio é um gênio, independentemente do número de idiotas que pertencem à mesma raça - e um idiota é um idiota, independentemente do número de gênios que compartilham sua origem racial.”

 

Ao lermos isso, pensamos imediatamente na Dilma Rousseff. Vai me dizer que não pensou?

 

Quanto ao ministro Alexandre de Moraes e ao professor Carlos Alberto Decotelli, sem esquecer da própria Dilma e tantos outros que independente da cor, gênero, nacionalidade e inteligência inata, carecem de bom caráter, talvez o texto devesse ser esse:

 

“Um indivíduo honesto é honesto, independentemente do número de mentirosos que pertencem à mesma raça - e um mentiroso é um mentiroso, independentemente do número de indivíduos honestos que compartilham sua origem racial.”


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A fake news do STF - 29.06.20


Artigo do Pensador Mateus Bandeira

 

Seria preciso ser muito ingênuo ou nefelibata para crer que o Judiciário sempre age com imparcialidade e que a política nunca entra nos luxuosos e dispendiosos palácios das cortes. Havia, no entanto, um esforço para preservar as aparências. Aparentemente, este pudor estiolou-se.

Como corolário do perigoso e pernicioso ativismo judicial, a Corte Suprema instalou, de ofício, o inquérito 4781 – de alcunha “das fake news”. Com ele, caiu o véu roto e emborralhado que tentava dar aparência de seriedade, imparcialidade e compromisso do STF (Supremo Tribunal Federal) com a justiça.

Doravante, difícil será acreditar em juízes imparciais. E não é necessário ser versado em direito para chegar a esta conclusão.

Quem julga não acusa, quem acusa não julga

Princípios basilares de justiça, que antecedem o Direito, foram maculados com a instalação do inquérito 4781. O mais elementar deles foi estilhaçado: quem julga não acusa, quem acusa não julga.

Elementar. Se eu estou acusando alguém, como posso julgar este indivíduo? Ora, se acuso é porque quero a condenação.

Sob o pretexto de investigar ameaças a seus integrantes, o presidente da Corte instaurou um inquérito e nomeou o juiz. Que tal, leitor, se, da próxima vez que te sentires ameaçado, instaurares um processo contra o suspeito e decidires a sentença?

Só esta barbaridade seria suficiente para detonar o inquérito, considerando-o inconstitucional. Mas há mais.

O juiz do inquérito nunca poderia ter sido escolhido a dedo, como aconteceu, mas sorteado. Caso o sorteado tivesse sido o juiz Marco Aurélio Mello, único a considerar o inquérito inconstitucional, a ação poderia ter sido arquivada.

https://osdivergentes.com.br/wp-content/uploads/2020/05/MarcoAurelio_STF_SupremoTribunalFederal_1B-1.jpgO ministro do STF, Marco Aurélio Mello, foi o único a votar contra o inquérito das fake news

Além disso, os réus não eram notificados e não tinham acesso ao processo. A investigação jamais poderia ser de iniciativa da própria Corte. Como disse Marco Aurélio, o Judiciário é um “órgão inerte. Há que ser provocado para atuar. Não pode a vítima instaurar inquérito”. Nada mais parecido com a obra de Franz Kafka.

Cachimbo e boca torta

Como há muito os magistrados da Corte Máxima vêm abusando de seu poder sem reação à altura – com exceção de um grupo de senadores e de parte da população, desiludida com a injustiça e o fausto que graça nas altas cortes do Judiciário -, os ditos ministros ultrapassaram mais um limite. Ignoraram a imunidade parlamentar e violaram os direitos de deputados e senadores.

Atenção. Sou contra o foro privilegiado. Todos devem ser iguais perante a lei. Há, porém, uma prerrogativa que deve ser inalienável aos membros do Congresso Nacional: o direito à palavra e à livre expressão. Seus votos e opiniões não podem, numa democracia, ser conspurcados.

Aliás, numa democracia, a liberdade de expressão deve ser valor absoluto. Na nossa, promulgada em 1988, este direito está expresso no artigo 5º em mais de um inciso.

Tu ainda acreditas no STF?

A mensagem autoritária do inquérito 4781 à sociedade é: “Nós, ministros do Supremo, não podemos ser criticados”. Por não gostarem das queixas legítimas dos cidadãos, parte delas merecidas, acusam, prendem, invadem residências, censuram a imprensa, usam a Polícia Federal como sua segurança particular e não dão ciência ao Ministério Público – este, sim, com a prerrogativa constitucional de acusar.

https://osdivergentes.com.br/wp-content/uploads/2020/05/DiasToffoli_JairBolsonaro_1.jpgO presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, e o presidente da República, Jair Bolsonaro – Foto: Marcos Corrêa/PR

Aqueles que apoiam as medidas dos integrantes do STF devem se lembrar que, hoje, a ação se volta contra o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Amanhã, o alvo pode ser outro. Pau que bate em Chico bate em Francisco.

Fato é que o STF e seu inquérito que pode tudo contra todos está colocando em risco a liberdade de expressão. O que me faz lembrar dois vídeos que gravei e alcançaram grande repercussão nas redes sociais.

Um deles tinha como título “Tu acreditas no STF?”. O outro, “Nas teta$ da INjustiça”.

Neles, usei meu direito democrático e constitucional de criticar a Corte Máxima. Hoje, penso, aquelas críticas não foram tão severas, pois vieram antes da extinção da prisão em segunda instância (que favorece ricos e poderosos já condenados) e das lagostas e vinhos de grife bancados com dinheiro da Viúva.

Se se derem ao trabalho de lerem este artigo e assistirem aos dois vídeos, penso que corro o risco de ser arrolado no inquérito das fake news. Afinal, com a ação surreal, o STF decretou que é proibido criticar as excelências togadas.

Assim, caso eu pare de escrever e me manifestar, uma hipótese é a de que fui abduzido por um juiz supremo, que não gosta de ser contrariado. Parece piada, mas, se nada fizermos, o Poder Judiciário, que já é tremendamente poderoso, vai se tornar um Poder acima dos demais.

Não poderemos mais dizer que eles julgam quandose e o que quiserem, sem nenhuma fiscalização. Assim, uma ação de precatório pode ser julgada após a morte da vítima. Se for julgada.

Os altíssimos e indecentes salários do Judiciário, que extrapolam o teto constitucional, não poderão ser divulgados. As inúmeras mordomias que se autoconcedem, como o vergonhoso auxílio-moradia, passarão a ser sigilosas.

As cada vez mais frequentes invasões de competência nas decisões exclusivas do Executivo, como a nomeação de ministros e assessores, e do Legislativo, como a legislação do aborto e a definição de medidas de combate à corrupção, se tornarão cotidianas. Parece absurdo?

Hora dos sem-toga agirem. A começar pelo Senado

Pois pareceria impensável há pouco tempo imaginar o STF acusando, julgando e prendendo ao mesmo tempo, tudo de forma sigilosa.

Fica claro por este artigo que não vou me acovardar. Continuarei criticando qualquer autoridade pública, paga com o nosso imposto, que extrapolar suas prerrogativas, desviar recursos públicos, atentar contra a democracia e agir na aparente legalidade, mas de forma imoral. Tem e terá meu repúdio e minha denúncia.

Sou cidadão, não um pária. Não me considero menor do que os juízes porque não uso toga. Como apontou com visão de cidadania Rui Barbosa, “a pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário; contra ela, não há a quem recorrer”. É disto que se trata o inquérito 4781.

A pandemia fez adormecer as barbaridades perpetradas pelos ministros supremos, como a prescrição de crimes praticados por poderosos e as liminares ultrarrápidas em favor de prediletos. É hora de retomar esta batalha.

https://osdivergentes.com.br/wp-content/uploads/2019/02/4-Davi-Alcolumbre-1.jpgDavi Alcolumbre, presidente do Senado Federal

Além de não nos calarmos, é preciso retomar a campanha pela CPI da Lava-Toga. E, ao mesmo tempo, pressionar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para que cumpra seu papel constitucional e dê andamento aos pedidos para processar ministros do STF por crime de responsabilidade.

Cabe exclusivamente ao Senado processar e julgar os integrantes da Corte Suprema. Não se está pedindo ao presidente do Senado que prenda os ministros, como estes fizeram contra críticos que consideraram suspeitos. Mas que abra os processos de impeachment e instale a CPI. Certamente o Legislativo, cujas Casas são abertas ao escrutínio popular, não agirão como os supremos togados.

Ou juízes do Supremo estão acima da lei? Se a resposta for sim, resta parafrasear um coronel dos tempos da ditadura militar: “às favas a justiça”.

 


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