Espaço Pensar +

BRASIL 2022 - 25.03.22


por Silvio Munhoz

 

“A democracia não existirá e a livre participação política não florescerá onde a liberdade de expressão for ceifada, pois esta constitui condição essencial ao pluralismo de ideias, que por sua vez é um valor estruturante para o salutar funcionamento do sistema democrático.” Trecho de voto Alexandre de Moraes, citado por Edson Fachin na ADPF 403.

                Para ver como as coisas acontecem no Brasil, segundo notícia[1], no final de fevereiro o atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (Ministro Edson Fachin) e o futuro (Ministro Alexandre de Moraes) se uniram para mirar o combate às Fake News, pois seria uma grande ameaça às futuras eleições.

            Alguns dias após, o Ministro Moraes, em decisão vazada, suspendeu a utilização do  Telegram em todo o Brasil[2] por desrespeito à Justiça brasileira, determinando ao aplicativo o cumprimento em 24hs de algumas ações: bloqueio da nova conta de Allan dos Santos, criada após a retirada de outras 03 (velha pendenga do Ministro que, inclusive, postulou a prisão pela Interpol e extradição do jornalista que está nos EUA, sem amparo legal como expliquei em crônica anterior); retirada do post do Presidente da República Jair Bolsonaro, que divulgaria “informações sigilosas” sobre um ataque Hacker ao TSE; e a exclusão da conta do jornalista Cláudio Lessa (será mais uma censura prévia? Tal medida viola as liberdades de expressão e de imprensa previstas como garantias fundamentais na Constituição? Perguntas  para o leitor responder).

                O combate às chamadas Fake News (não é crime na legislação penal brasileira) chegou ao ponto de suspender um aplicativo de mensagem em prejuízo de 70 milhões de usuários brasileiros, da defesa civil, que o utiliza, pois diferente de outros não limita o número de pessoas nos grupos, sem contar o número sem fim de brasileiros que o possui como ferramenta de trabalho e outros problemas como a cobertura da guerra no leste europeu, fato apontado pelo jornalista Jorge Pontual, que classificou o episódio com todas as letras como censura[3] (a suspensão não entrou em vigor, pois o dono do aplicativo atendeu aos pleitos no prazo).

         Vamos fazer uma pausa e pensar... O autor da decisão pediu ao aplicativo para retirar o post do Presidente da República que fala sobre a ocorrência de um ataque hacker no TSE. Isso seria uma mentira? Seria, então, Fake News?

            Bom, ao que sabe a população brasileira o ataque hacker ocorreu, efetivamente, a ponto de o próprio Tribunal solicitar à Polícia Federal a instauração de um inquérito policial para investigar o feito.

         Lembro os termos da Portaria de instauração do Inquérito Policial n.º 1468, da Superintendência Regional do Distrito Federal da Polícia Federal, assinada pelo Delegado Vitor Neves Feitosa Campos Jr: “Considerando os termos do Oficio nº 582.5 GAB-SPR, proveniente do Tribunal Superior Eleitoral, registrado nesta SR/PF/DF sob o nº 08200.021554/2018-33. RESOLVE: lnstaurar lnquérito Policial, para apurar possível ocorrência do delito; previsto no art. 154-A, §3° do Código Penal, que veio ao conhecimento desta Superintendência por meio do Oficio n° 582.5 GAB-SPR, proveniente do Tribunal Superior Eleitoral, trazendo a noticia de suposta invasão a sistemas e bancos de dados do TSE, com acesso e divulgação de dados sigilosos daquele Tribunal.”

            Como visto, portanto, houve um ataque com invasão e divulgação de dados sigilosos do Tribunal. Cadê a Fake News? Aonde está a mentira?

            Claro, a retirada foi determinada, como consta do pedido, por conter “informações sigilosas”, pois ao tempo que o Presidente da República mostrou em uma live e realizou o post o inquérito era sigiloso!.. Só que não, como referiu o Delegado ao depor na investigação sobre o vazamento de dados, a apuração policial não estava sob sigilo (e só após a determinação para investigar vazamento foi posta a tarja de ‘sigiloso’). Tal fato levou, inclusive, o Procurador-Geral da República a pedir arquivamento de investigação instaurada contra o Presidente da República e um Deputado Federal por vazamento, pelo simples motivo de inexistir sigilo no inquérito da invasão.[4]

            Percebem, qual a verdadeira Fake News? A invasão, o ataque Hacker ao TSE aconteceu, efetivamente, e o inquérito que o investigava não estava sob sigilo...


            Tal episódio faz lembrar o lema “ignorância é força” do Ministério da Verdade da obra 1984, cujo objetivo era “apagar as notícias verdadeiras e criar mentiras a serviço do Partido”, mantendo o povo na ignorância, pois assim podia dominá-lo.

 

Fico pensando, cá com meus botões, caso vivesse Orwell, autor da fantástica obra 1984 no Brasil de 2022, ficaria pasmo, perplexo e brabo de como não pensou em tantas coisas que acontecem na realidade do nosso dia a dia...

            Por outro lado, embora muita gente pense que o brasileiro tem memória curta, como costumo dizer, isso ocorria antes da era da internet e da disseminação geral das redes sociais, após não mais.

            Lembram, já aconteceu antes de membros do judiciário tentarem suspender a utilização de redes sociais, quando em 2015 e 2016 alguns juízes decretaram a paralisação do Whatsapp por não estar colaborando com a justiça.

            Na oportunidade, um partido político entrou com pedido no Supremo Tribunal Federal para cassar tal decisão e o Ministro Ricardo Lewandowski, na condição de Presidente da Corte, suspendeu a decisão de bloqueio do aplicativo, pois “aparentemente viola o preceito fundamental da liberdade de expressão e de comunicação”.[5]

            O pleito do partido gerou, igualmente, a ADPF 403 (Ação de descumprimento de preceito fundamental, no voto do relator o trecho citado ao início do artigo) e ADI 5527 (Ação direta de constitucionalidade), o julgamento começou no plenário da Corte Maior em 27 de maio de 2020[6], e o Ministro Edson Fachin, relator da primeira, e a Ministra Rosa Weber, relatora da segunda, proferiram seus votos, sintetizados em uma fase lapidar: “Estou convencido, tal como a e. Ministra Rosa Weber, que a sanção de suspensão apenas tem lugar quando os aplicativos de internet tiverem violado os direitos de privacidade dos usuários. Edson Fachin, ADPF 403, pág. 75.” Os grifos são meus.

            O Julgamento do caso não terminou, pois na oportunidade o Ministro Alexandre de Moraes pediu vista do processo e até o dia de hoje, passados quase dois anos, não o colocou novamente em julgamento. Porém toma decisão em franca oposição a três de seus pares e suspende outro aplicativo de mensagens...

            Pior, no Brasil as coisas costumam sempre piorar, com o apoio e conivência de grande parte da ex-imprensa que há muito deixou de informar a passou a torcer, fazendo, sempre e todos os dias, coro às ideias da vertente a qual se engajou. Como bem demonstra o seguinte post.

                Quando publiquei no FaceBook a foto reproduzida acima de George Orwell lendo o livro “2022”, uma amiga que só conheço das redes, Dora da Vera, respondeu-me: “Coragem, hômi! Tá só começando!”. Lendo a resposta fiquei a pensar quão profético foi o título de meu primeiro livro, “Brasil 2020: O mal se tornou crônico[7]”, pois embora já estejamos em 2022 tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Ingênuo quem achou que poderia melhorar em tão pouco tempo!..

“Em se tratando de CENSURA, que é um ataque frontal a LIBERDADE DE EXPRESSÃO, que por sua vez é um DIREITO UNIVERSAL, aí não há prazo mínimo para que os REPRESENTANTES DO POVO passem a agir, ou REAGIR. Isto é algo que precisa ter resposta imediata e pronta. Mais ainda quando o INFRATOR é um membro da SUPREMA CORTE, algo que jamais poderia ser considerado como possível.” Gilberto Simões Pires em seu blog Pontocrítico.com[8]

Que Deus tenha piedade de nós!..

 

http://https://www.tribunadiaria.com.br/ler-coluna/1417/brasil-2022.html


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O MAIOR SEQUESTRO DA HISTÓRIA - 23.03.22


por Percival Puggina
 
         Não, não me refiro a valor do resgate pago a sequestradores. O que tenho em mente é o imenso valor do bem sequestrado, que tem vínculo estreito com o sucesso, ou com o fracasso de uma nação.  

Em nosso país, a Educação foi sequestrada por interesses políticos, ideológicos e corporativos que a mantêm cativa, sob ferrolhos, impedindo-a de cumprir suas funções enquanto muitos dela se aproveitam para os próprios fins.

O art. 206 da Constituição Federal não deixa margem para fanatismos paulofreireanos. Nenhuma “autonomia” do professor, da escola, do departamento, da universidade, do Conselho, do sindicato pode desrespeitar o disposto no inciso III do art. 206 da Constituição Federal quando dispõe que o ensino será ministrado com “pluralismo de ideias e de concepções”. Mas para ler e entender isso é preciso não ser analfabeto.

Há um incompreensível silêncio sobre o dado divulgado em junho do ano passado pelo IMD World Competitiveness Center, que comparou a prosperidade e a competitividade de 64 nações. No eixo que avalia a Educação, o Brasil ficou em último lugar! Não surpreende o resultado, num país em que relacionar atividades pedagógicas a expectativas burguesas como competitividade e prosperidade é crime hediondo, punido com “cancelamento” definitivo do infeliz que o fizer. “Fora Bolsonaro!”, dirá a claque ensaiada diante desta afirmação.

Quem desejar um Brasil mais qualificado sob o ponto de vista educacional terá que arrumar um banquinho e aguardar pelo menos uma geração inteira. Isso se começarmos amanhã de manhã bem cedo. Afinal, o fique em casa deixou nossas crianças por dois anos sem aula minimamente proveitosa e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua 2021) apontou um aumento de 66,7% no número de crianças de 6 a 7 anos que não sabem ler nem escrever!

"Uma geração inteira?", talvez exclame, preocupado, o leitor destas linhas. Sim, uma geração inteira porque para podermos alfabetizar melhor nossas crianças será preciso refazer um longo percurso que começa pela formação dos professores naquelas usinas dos recursos humanos do sistema que são as universidades. Ao mesmo tempo, haverá que abrir caminho até os registros e válvulas que comandam a entrada e saída de recursos do erário. E, também concomitantemente, acabar com as iniquidades instaladas na tradição brasileira, entre elas a que faculta ensino superior gratuito a quem pode pagar por ele. Em menos palavras: melhores professores, mais recursos financeiros, mais bom senso.

Por fim, se abrirmos a janela para espiar o Brasil real, será impossível não perceber que se instalou a cultura do não saber. Poucos são os alunos que querem aprender. Menos numerosos ainda os que têm hábitos de leitura. Separa-se o lixo na cozinha, mas não se separa o lixo inserido na Educação e nos meios de comunicação.

É a epifania da ignorância, cultuada em cativeiro e fanatismo.


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A IDEIA MAIS PERNICIOSA SOBRE A HISTÓRIA DO BRASIL - 21.03.22


Por Percival Puggina
 
         Quem são os donos do Brasil? Nada que se diga sobre nossa História é tão mal intencionado, tão insidioso e venenoso, quanto afirmar que o Brasil foi invadido e que isto a que chamamos Pátria pertence integralmente aos índios, seus primitivos habitantes. Observe que a tese provoca orgasmos ideológicos nos esquerdistas mais radicais. A aparente “lógica” dessa afirmação abre caminho para a negação total do direito de propriedade e de todo o Direito. Nega legitimidade moral e jurídica a tudo que aconteceu de 1500 para cá. Transforma o amor à Pátria em delírio de exploradores brancos. Instala animosidade geral entre os brasileiros, cria ressentimentos, justifica a violência, semeia culpas, divide a nação entre devedores e credores, transforma mistificadores em moralistas do passado, do presente e do futuro.

Você pode imaginar algo mais aprazível para o esquerdismo militante? Eu não.

Transcreverei aqui uma carta que no ano 2000 escrevi a um religioso católico que contestou minha opinião sobre a legitimidade dos festejos dos 500 anos do Descobrimento. Creio que ela esclarece bem a questão que ainda hoje, infelizmente, serve a manipulações históricas nas salas de aula do Brasil.

***

Quem, em todo o planeta ocupa terras que foram suas desde os primórdios?

1-Os próprios Tupiniquins que estavam no litoral da Bahia quando Cabral chegou, não haviam expulsado dali os tapuias?

2-Os Incas, que habitavam as costas do Pacífico no século XVI, não haviam submetido dezenas de outros povos até se consolidarem como mais avançada nação pré-colombiana?

3- E os Aztecas, a quantos expulsaram e sacrificaram? Que fizeram na Europa e norte da África godos, visigodos, alanos, alamanos, burgúndios, germanos, hunos?

Ademais, são bíblicos e bem conhecidos os episódios da conquista da Palestina pelos israelitas vindos do Egito. Deus afastou as águas do Mar Vermelho para a travessia do povo da Aliança, mas não deixou a Terra Prometida livre e desimpedida para ele. Rolou sangue – e muito sangue.

A origem italiana do religioso que me escreveu leva a supor que ele só é católico porque Constantino, em 312, deu fim à religião do Império. E eu nunca vi qualquer religioso reclamando do que foi feito com a cultura romana anterior ao cristianismo.

Na mesma linha de raciocínio, deveríamos lastimar que o imperador, num canetaço, haja tomado de seus patrícios, a fé e os templos. Tampouco vi qualquer religioso denunciando a ação evangelizadora dos cristãos sobre os bárbaros arianos na Alta Idade Média, nem os procedimentos de Clóvis e Carlos Magno após terem sido batizados.

Sempre estudei nos mais elementares livros de história do colégio, que os índios foram vítimas de violência, tentativas de escravidão, etc.. Não sei, portanto, de onde saiu a ideia de que só agora, com o PT e seus consectários, vem a tona a verdade sobre os fato.

O que surge como coisa nova, é a tentativa de lucrar dividendo ideológico, jogando brasileiros contra brasileiros e reduzindo a história a termos compatíveis com a interpretação marxista da luta de classes.

Finalmente, lamento perceber na manifestação de tantos católicos sobre o tema, um escasso valor dado à conversão, ao batismo e à evangelização de um continente inteiro. É como se deitassem maus olhos na cruz plantada pelos nossos descobridores nas areias de Porto Seguro, após a primeira missa, que ante ela se ajoelhavam para que os nativos (na forma da carta de Caminha) “vissem o respeito que lhe tínhamos”. 

O Brasil é de todos os brasileiros!


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O ENGODO NOSSO DE CADA DIA - 17.03.22


por Guilherme Baumhardt - Correio do Povo

 

“O petróleo é nosso!” era o que dizia a propaganda oficial do governo Getúlio Vargas, na década de 1950. E, na época, foi ela a tese vencedora. Saíram derrotadas figuras como Carlos Lacerda e Roberto Campos, que já alertavam para o erro de ter uma estatal monopolista. Seria muito melhor abrir o mercado e estabelecer concorrência. Não à toa, Campos cunhou a expressão “Petrossauro”, que acabou imortalizada, para definir a empresa. “Bob Fields”, por sinal, é um sujeito que ainda não recebeu o devido reconhecimento pela sua trajetória e legado.

 

Somente agora, quase sete décadas depois, vemos um ambiente minimamente concorrencial no setor de petróleo brasileiro, em que companhias privadas estrangeiras passaram a entrar no processo, desde a exploração até o refino. Ao longo de todo este período, convivemos com a ideia (equivocada) de que o petróleo era uma riqueza nacional, esquecendo que ele só tem valor depois de retirado do fundo do mar (no caso brasileiro, em águas profundas), craqueado (quando são obtidos gasolina, gás de cozinha, querosene, asfalto e outros produtos) e distribuído. Do contrário, é apenas um mineral escondido e que precisa ser trabalhado.

 

No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, os inimigos do povo eram os “neoliberais” e a dívida externa brasileira. Os primeiros eram os “entreguistas”, que davam de presente para o capital privado internacional as nossas riquezas (na verdade, um punhado de estatais ineficientes, atrasadas e jurássicas). No caso da dívida, na cabeça dessa gente, não haveria mais a necessidade de honrar nossos compromissos, afinal, o Brasil era um país autossuficiente e não dependia de importações, exportações ou parceiros comerciais externos. Confesso a vocês não saber se a origem dessa estultice era mera desinformação ou safadeza. Talvez uma mistura de ambos.

 

Comprar esse tipo de engodo poderia ser explicado, talvez, pelo nosso passado colonial. Se isso fosse verdade, não encontraríamos mundo afora gente disposta a acreditar em baboseiras semelhantes. Não é, portanto, uma exclusividade nossa. Nosso mais novo embuste (ou engana bobo) é a agenda climática e o risco de aquecimento global. Se você se sentar ao lado de um seguidor da jovem Greta Thunberg e ouvir meia hora da discurseira produzida por essa gente, são grandes as chances de entrar em depressão e ter a certeza de que o fim do mundo é questão de horas. Pouco importa se no debate (entre pesquisadores sérios) questiona-se inclusive se a ação humana tem todo esse potencial, ou se somos absolutamente insignificantes em transformações sobre as quais não temos controle algum.

 

Com raras exceções, o mundo ocidental comprou a agenda das mudanças climáticas. E, com isso, entrou em um beco sem saída. Noves fora o mérito dos avanços tecnológicos (descobertas científicas e novas fontes de energia são sempre bem-vindas), assistimos a líderes mundiais colocarem suas nações em uma posição de vulnerabilidade jamais vista. Transformaram a população liderada por eles em reféns de uma narrativa que pode interessar a alguns, mas não a todos.

 

No caso da energia (e consequentemente do uso de combustíveis fósseis), há um tripé que precisa ser observado, mas foi ignorado: a questão ambiental (contemplada pela turma do politicamente correto), a segurança e o preço (os dois últimos solenemente ignorados pela turma “biodesagradável”). O reflexo disso é que temos energia mais cara e sem a garantia de fornecimento, tão importante para empresas. Energia mais cara significa custo mais alto. Custo mais alto significa preços maiores. Preços mais altos tornam produtos menos acessíveis. E se não houver garantia de abastecimento, você automaticamente afasta investidores, que são os geradores de empregos, riqueza e renda.

 

A nossa ingenuidade surpreende.


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Sufocada pela burocracia, sociedade serve ao Estado. Deveria ser o contrário - 16.03.22


Por Paulo Uebel - publicado na Gazeta do Povo

 

O dever do Estado é governar, manter a ordem e aplicar leis que defendam os cidadãos e suas atividades, protegendo a vida, a liberdade e a propriedade. Em uma democracia, as atividades do Estado jamais deveriam ser autointeressadas ou sem limites, como acontece muitas vezes no Brasil.

 

O Estado surgiu para facilitar a vida em sociedade. O conceito de servir o cidadão significa que o estado deve melhorar, simplificar, tornar menos onerosa, mais organizada e mais simples a vida das pessoas. Quando o Estado cria burocracias desnecessárias e onera demasiadamente as pessoas, ele está agindo em sentido contrário à sua razão de existir.

 

Há três séculos, a burocracia era encarada como um termo para designar a organização do Estado, formada por servidores responsáveis por suas respectivas áreas de atuação. Hoje, burocracia é sinônimo de empecilho, de obstáculo e atraso para a vida dos cidadãos. Por quê? Porque o cidadão reconhece que não existe valor e muito menos necessidade em várias ações e demandas que o estado realiza.

 

Em vez de criar uma empresa para sua segurança, para reduzir custos de transação e para facilitar seus negócios, no Brasil, o empreendedor acaba tendo que lidar com uma série de obstáculos que não fazem o menor sentido: as empresas gastam até 1.501 horas por ano para pagar impostos por aqui, segundo estatística do Banco Mundial. Se você considerar o horário comercial de trabalho, é o equivalente a 187 dias só para pagar impostos. É um absurdo!

 

 

E a média brasileira para a obtenção de uma licença ambiental é de 208 dias, de acordo com o engenheiro ambiental Leonardo Santiago, da consultoria WayCarbon. O número de dias varia de acordo com os estados ou com as atividades. Por exemplo, no caso do setor de transporte, obter licenciamento ambiental pode variar de 308 até 2.828 dias (mais de sete anos). Em atividades do agronegócio, de 267 a 3.967 dias (mais de dez anos). Na indústria alimentícia, de 178 a 2.898 dias (mais de sete anos), e assim por diante.

 

Quando o assunto é execução de contratos, isto é, a resolução de disputas comerciais em varas cíveis, a média de tempo no Brasil é de 32 meses, conforme o relatório Doing Business 2021. O período entre protocolar uma ação e a  execução da sentença varia de 18 meses a mais de quatro anos. “Esse processo é mais demorado e mais oneroso do que a média dos países de alta renda da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)”, explica o Doing Business.

 

Das 191 economias medidas pelo Doing Business 2021, o Brasil é uma das 15 onde a abertura de uma empresa requer pelo menos 11 procedimentos, o que leva em média três semanas e custa o equivalente a 5,1% da renda per capita anual. Isso envolve até seis órgãos públicos nos âmbitos nacional, estadual e municipal. Por aqui, são impostos três procedimentos a mais do que a média das economias da América Latina e do Caribe. Embora o Brasil esteja melhorando muito nesse quesito, ainda precisamos simplificar mais a vida dos empreendedores.

 

No famoso discurso de Abraham Lincoln, proferido em 1863, na cerimônia de inauguração do Cemitério Militar de Gettysburg, ele disse que a democracia é o "governo do povo, pelo povo e para o povo". Entretanto, no Brasil, parece que houve uma inversão. Hoje, parece que a nossa democracia é o governo da burocracia, pela burocracia e para a burocracia. O cidadão fica completamente refém desses entraves, quase precisando pedir favor para exercer seus direitos mais básicos. Está mais do que na hora de o Estado resgatar seu papel original e voltar a servir a sociedade.


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AS FORÇAS INSANAS QUE AGEM CONTRA O PROGRESSO DO BRASIL 15.03.2022


O grande inimigo da prosperidade econômica do Brasil – e, por consequência, da real melhoria das condições de vida dos brasileiros – tem sido a pandemia do coronavírus, pelo desastre sem precedentes que provocou na atividade produtiva do país. Mas o vírus está sendo vencido, aqui e no restante do mundo. Com o tempo, ele não estará mais presente no dia a dia da humanidade, e será possível voltar às condições normais para a operação da economia.

O problema real, para o Brasil, está no seu vírus permanente, que existia muito antes da Covid e vai continuar existindo, cada vez mais forte: a ação destrutiva que exercem contra o progresso um conjunto insano de leis, a burocracia em todos os seus níveis e o sistema judiciário de um modo geral.

Nada impede de forma tão agressiva o Brasil de crescer, hoje em dia, quanto a combinação desses três fatores. Não se trata de uma questão abstrata, e muito menos de algo que só interesse a empresários ou a quem tenha dinheiro a perder ou ganhar. Combater o progresso é combater diretamente qualquer possibilidade de avanço social no Brasil – um país que precisa desesperadamente vencer a pobreza e prover uma existência mais digna para a grande maioria da sua população.

Agir contra o desenvolvimento econômico é agir contra o aumento de oportunidades para os pobres, a oferta de empregos e a distribuição de renda. É bloquear a aquisição de conhecimento, essencial para o cidadão melhorar seus níveis de remuneração. É impedir a criação de riqueza – e sem criar riqueza não se cria renda.

O que se vê no Brasil todos os dias é o aparelho do Estado trabalhando ativamente para impedir o progresso em tudo aquilo em que pode interferir. São as milhares de repartições públicas que têm o poder de dar ou negar “licenças” – e para tudo é preciso pedir licença ao burocrata. É, sobretudo, o Ministério Público, que proíbe o tempo todo as empresas de realizarem investimentos nas suas atividades ou de executarem projetos de novos negócios. É o Judiciário, que na maioria das vezes atende exigências do MP e paralisa durante anos a fio, e às vezes para sempre, as tentativas de produzir mais e melhor por parte da iniciativa privada.

Temos, neste momento, o exemplo da mineração de potássio no Amazonas – existem as minas, com 800 milhões de toneladas, os investidores, o projeto industrial, o cumprimento de todas as regras ambientais, mas o MP bloqueia qualquer atividade na área desde 2016. Sua alegação: a mina está “próxima” a uma reserva indígena, e essa proximidade pode perturbar a tribo ali residente.

O aproveitamento desse potássio, que hoje o Brasil tem de importar para sua produção de fertilizantes, é essencial para o agronegócio brasileiro – e o agronegócio é essencial para a economia do país. Mas o MP, com o amparo da Justiça, passa por cima disso tudo em busca de um suposto benefício a uma minoria. É um caso clássico de interesse comum sendo sacrificado por interesses particulares.

É, também, uma lição objetiva sobre as enormes forças que agem contra o progresso no Brasil atual. Seus integrantes acham que o desenvolvimento econômico é um mal em si. Vai atrapalhar os índios, as florestas e o meio ambiente em geral. Significa, sempre, agressão à natureza – ou degradação do meio ambiente, poluição da atmosfera e aumento da taxa de carbono.

Mais que isso, crescimento conduz a lucro – e boa parte dos membros do MP acredita que o lucro é um pecado mortal, como o capitalismo em geral, e tem de ser combatido de todas as formas possíveis.

A prioridade absoluta, para esses procuradores, é deixar o Brasil parado exatamente onde está; nós continuamos tendo tudo aquilo que temos, mas quem é pobre que continue pobre, quem não tem emprego que continue não tendo, e quem faz trabalho primitivo e mal remunerado que não saia do mesmo lugar.

Só o crescimento econômico sem amarras pode curar essas coisas. Se você é contra o remédio, é a favor da doença. É onde estamos.


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